domingo, 18 de março de 2012

Um Tesouro Património da Humanidade

Há dias, recebi O Tesouro. É um livro. Uma história de ficção literária. Oferta da autora, Maria Clara Miguel, pseudónimo de Isaura Afonseca. Muito obrigado!



Conta-se aqui uma história de «caça ao tesouro». Três adolescentes (dois irmãos, Joana e Pedro - os mais crescidos e cordatos - e um primo, Afonso - o mais miúdo e traquina) acabarão por descobrir, no «velho casarão da família», numas férias de verão, valiosa e surpreendente riqueza. Para o conseguir, o «trio» teve de decifrar uma série de pistas e subtis indicações, deixadas pela bisavó Margarida, em vários locais.
Tudo começa com «uma folha de papel vegetal, dobrada em quatro», encontrada por Pedro, inesperadamente, n’A Ilha do Tesouro. Em «caligrafia gordinha e bem desenhada», Margarida, desafia o leitor a, depois de terminar a narrativa de Stevenson, «embarcar numa aventura» e «descobrir um tesouro estupendo e único». Terá apenas, para o efeito, de «usar bem […] a inteligência e acreditar».
Perante o manuscrito, Pedro reúne com a irmã e o primo. Analisam a mensagem e decidem avançar. Em conjunto, mas sem conhecimento dos adultos. Margarida, cujo «amor pelos livros» era de todos bem conhecido, localiza a «primeira pista»: «sétimo livro da primeira prateleira da minha estante.»
Mas, nos seus livros, ninguém pode mexer. Todos sabiam. Só com autorização de Amélia, a mais velha e respeitada criada do «solar». Margarida, «no leito da morte», confiara-lhe a custódia daquela estante, com o pedido de que nunca fosse alterada, em cada prateleira, a ordem dos volumes. Os livros podiam ser retirados e lidos. Mas, depois, tinham que regressar ao seu «local exato». Havia, assim, no escritório da Margarida, uma «estante proibida», onde ela deixara devidamente organizados os livros de que mais gostara. E o «trio» lá teve de ir pedir à Amélia o tal sétimo livro – As Aventuras de Tom Sawyer, de Mark Twain – a fim de procurar a pista e decifrá-la. E depois, outras e outras.
 Estas são as personagens protagonistas da narrativa. Incluindo Margarida, ainda que falecida há cerca de duas décadas. E a Amélia, ainda que quase analfabeta, mas com uns «lúcidos noventa e três anos». Eram ambas da mesma idade e tinham vivido, praticamente, sempre juntas. Amélia representa, por isso, não só a memória viva da «sua menina Margarida», mas também a discreta presença da sua forte personalidade.
Quem se entregar à leitura d’O Tesouro verificará, por outro lado, que não faltam referências explícitas a livros (incluindo algumas transcrições) e a termos da mesma «área lexical» (estante, escritório, biblioteca, dicionário, enciclopédia, pesquisas na internete (Google), leitor, leitura, literatura, interpretação…) Além das narrativas de Stevenson e Twain, encontram-se referências e/ou citações de obras de Eça, Camões e Torga, entre outros, mas também de As Mil e Uma Noites e da Bíblia. Ou seja, de «pequenos e grandes tesouros literários» que, selecionados como principais pistas e anotados de sinais pela bisavó, ajudaram os bisnetos a encontrar o valioso e gratificante tesouro. Tesouro que ela, há muito, havia preparado para quem, como ela, também gostasse muito de livros.
É sugestiva a ilustração da capa, de Aurélio Mesquita. Em primeiro plano, as crianças, surpreendidas e concentradas na consulta de um livro. Em fundo, como que diluído em marca de água, o rosto atento de Amélia (ou será Margarida?) velando o «trio» e como que guardando uma repleta estante de volumes.
O Tesouro é, evidentemente, uma narrativa infanto-juvenil. Os seus primeiros destinatários e prioritários leitores serão, por isso, crianças e jovens, com idades compreendidas, aproximadamente, entre os onze e os dezasseis anos. Do secundário, dir-se-á. Mas os adultos, sobretudo aqueles que não deixaram morrer a criança que foram, encontrarão, na leitura deste livro, também uma forma de (e)terno retorno àquela idade do sonho, imaginação e fantasia. De aventuras também, mas sem piratas e grandes perigos. Apenas com desafios intelectuais, morais e sociais.
 Uma permanente intencionalidade pedagógica configura, por isso, esta narrativa. Literária, em primeiro lugar, mas também linguística e gramatical, estética e ética, sem nunca esquecer o social e o afetivo. Não só a nível estritamente familiar, «porque os amigos são a família que nós escolhemos», dizia Margarida. Sem dogmatismos, mas com princípios. Sem tabus, mas com valores. Sem imposições. Com diálogos. Em liberdade, com responsabilidade e solidariedade.
O «estupendo e único» tesouro que os bisnetos de Margarida encontram, depois da decifração das pistas, não se cifra, por isso, tão só e apenas numa valiosa riqueza material. É também o que ele simbolicamente representa: todos os valores humanos e culturais antes referidos e que ao longo da narrativa foram evocados, avaliados, praticados e preservados. Daí que, no fim da história, a partilha do tesouro não fosse apenas entre os elementos do «trio», pois a bisavó exigia que parte da riqueza encontrada  coubesse também a um quarto elemento, aquele, precisamente, que possuía o valioso objeto artístico – caixinha de música - onde Margarida tinha engenhosamente escondido o tesouro.
Este Tesouro é, assim, em última análise, uma bela história de ficção, onde os valores que constituem e definem (deviam definir) o património (material e imaterial) da Humanidade estão presentes e atuantes. Se não como atores, como seus verdadeiros motores.
Se ainda estivesse no ativo, recomendaria, vivamente, aos meus alunos (futuros docentes) de todos os cursos e variantes, O Tesouro da Maria Clara Miguel/Isaura Afonseca. Porque nele também se ensina a ler uma obra literária. Interdisciplinarmente, como sempre deve ser.

Obrigado, Isaura, de novo.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Quadras populares (mais ou menos) soltas

O namoro (I)-  Jogo de sedução e conquista

Recordar tempos de infância e juventude é também retornar e-ternamente às tradições orais que, há mais de 50 anos, se conheciam, praticavam e retransmitiam boca em boca. Também elas fazem parte do nosso património (literário e musical), apesar de cada vez mais imaterial. Nos dois posts anteriores, falei do(s) cantar(es) de reis que, cá na minha terra, crianças e adultos cantavam, de porta em porta, durante praticamente todo o invernoso mês de janeiro. Eram cantares, como referi, praticados essencialmente por conterrâneos do sexo masculino. Não recordei nem registei tudo. Evidentemente. Selecionei. É possível, por isso, que a eles, um dia, regresse. Se não com mais um post, pelo menos com uma adenda.
Não era, porém, só em janeiro que nós cantávamos e/ou ouvíamos cantar. Cantava-se mais ou menos ao longo de todo o ano. Sobretudo raparigas e mulheres. (Os rapazes e os homens preferem assobiar). Em casa e fora dela, nos trabalhos e nos lazeres. Como formas de ensinar e aprender, de prevenir e criticar, de expressar sentimentos e emoções, de manifestar alegrias e tristezas, mostrar certezas ou aliviar preocupações. Percorrendo-se, a bem dizer, todos os estados e fases da vida, pessoal e colectiva.
Há, felizmente, no Mato, quem, dotado de uma memória prodigiosa, apesar dos seus longos 84 anos, ainda saiba e recorde, lúcida e ludicamente, um vasto rol de quadras populares. Quadras que, sob a forma de cantigas e/ou simplesmente “recitadas”, em cada um daqueles estados e fases se podem agrupar. Ou, talvez, numa só, se como puro divertimento as quisermos entender. O que, no fundo, no fundo, também eram.

Refiro-me à Rosinha - Rosa Taveira Araújo, de seu nome completo - da Quinta de Arcelos, que amavelmente aceitou confiar-me a sua rica e inesgotável arca de “cantigas e versos” (que, todavia, não cantou, apenas recitou). E com que generosa prontidão e paciência! [Aqui lhe deixo, Rosinha, mais uma vez e publicamente, o meu profundo agradecimento. Agradeço também ao grande amigo, arquiteto Oliveira Martins, a preciosa ajuda e colaboração.]
Das cerca de duas centenas de quadras recolhidas junto da Rosinha, apresento, hoje, uma primeira seleção. Aquelas que situo na primeira fase do namoro, em que o candidato, julgando-se capaz e capacitado, vai ao jogo da sedução e conquista. A iniciativa pertencia, em regra, ao rapaz, segundo os usos e costumes destas terras. Mas sabe-se que nem sempre assim foi. Houve sempre “moças atrevidas”, já diziam minhas avós.
A sequência destas quadras é da minha responsabilidade. É uma tentativa de ordenação do referido jogo. Trata-se, porém, ao fim e ao cabo, de uma amostra de “quadras (mais ou menos) soltas”.
Tanta lima, tanta lima,
Tanta lima, tanta amora;
Tanta menina bonita
E meu pai sem uma nora.

Hei-de cantar, hei-de rir,
Enquanto solteira for;
Que depois de casadinha,
Quem governa é meu amor.

Deita cordões ao pescoço,
Brinquinhos a dar a dar;
É bonita, gosto dela,
Tem olhos de namorar.

Menina, não me despreze,
Por ser pobre e nada ter;
Pode o rico lhe faltar
E o pobre não a querer.
Tem olhos de namorar,
Tem olhos de querer bem;
É bonita, gosto dela,
Não gosto de mais ninguém.

Ó minha pombinha branca,
Ó ave da Primavera;
Eu só qu’ria adivinhar
A tua ideia qual era.
Foste dizer ao meu pai
Que eu andava coradinha;
Os anjos do céu me levem,
Se esta cor não era a minha.

Ó minha pombinha branca,
Ó meu pombo arrolador;
Agora é que eu vou falar,
Deveras ao meu amor.

Chamaste-me trigueirinha,
Eu bem sei que sou trigueira;
Isto foi por em pequena,
Apanhar pó e sol na eira.

Lírio roxo, tão roxinho,
Ficas-me na alma gravado;
Tens jeito de ser mansinho
E olhar de apaixonado.

Chamaste-me trigueirinha,
Eu bem sei que sou trigueira;
Hás-de me ver ao domingo,
Como a rosa na roseira.

Menina do lenço preto,
Diga-me quem lhe morreu;
Se lhe morreu o amor,
Para amor aqui ‘stou eu.

Toma lá meu coração,
E a chave para o abrir;
Não tenho mais que te dar,
Nem tu mais que me pedir.



E assim finda este meu e-terno retorno.

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Cantares de reis – Dos “pequenos” e dos “grandes” (II)

Natividade de Josefa de Óbidos

Não tenho palavra de rei [apesar do nome], mas cá estou, hoje, para recordar e partilhar o cantar de reis – “dos grandes” – como prometi no post anterior.

Como então referi, a versão dos “reis dos grandes” era mais desenvolvida que a “dos pequenos”. Nestes, os cantores saltavam, habitualmente, a parte referente ao episódio dos magos. Naqueles - recorde-se - a sua composição/organização (estrutura) era, regra geral, a seguinte: (i) parte fática, através da qual os cantores estabeleciam contacto com o anfitrião e dele obtinham autorização ou recusa para cantar; (ii) parte com a narração cantada/contada (em verso) do episódio dos “reis magos”; (iii) parte de “vivas”, destinadas a saudar e felicitar o “senhor da casa”, família e eventuais terceiros presentes; e (iv) parte também fática de fecho ou fechamento, através da qual o grupo terminava o cantar e se despedia.
Como disse, no post anterior, “os reis dos grandes” eram habitualmente combinados com o “patrão” da casa. Mas havia também grupos de cantores adultos que apareciam sem aviso nem acordo prévio. Esperavam, contudo, ser também aceites e tão bem recebidos pelo proprietário, como os outros.
Tal como “os pequenos”, também “os grandes”, chegados à porta, janela ou postigo de uma casa, perguntavam/pediam se podiam cantar os reis. Mas havia grupos que começavam, mal aí chegados, a tradição. Segundo alguns informantes, era o mais habitual. Neste caso, o contacto estabelecia-se através da seguinte quadra:

(i)         Aqui estão os reis à porta,
Dispostos para os cantar,
Se o senhor nos der licença,
Nós lh’os imos começar.

Refrão
Aqui estamos nós, todos reunidos,
A cantar os reis aos nossos amigos.
Não é por interesse, é por amizade,
*A cantar os reis à sociedade  (*Cantamos).
                                    
Seguia-se a resposta do “senhor”, que era, geralmente, positiva. Mas podia ser de recusa, alegando, por vezes, já estar na cama ou a dormir. Havia, porém, os que insistiam. Todavia, se se entendesse que a recusa era por falta de (ou má) vontade, “os grandes” chegavam a formular ameaças, mais ou menos indelicadas e ofensivas. Como esta, para citar a mais «malcriada»:

Ouça lá, senhor *da casa [*nome ou apelido],
Casaquinha de bolota.
Se não quer que cante os reis,
Cagamos-lhe aqui à porta.

Claro que já não haveria tempo para o refrão. Toca a dar à sola! Um balde de água viria a caminho de cair-lhes em cima. Se não uma valente penicada. (Se desconhece esta palavra, pense na função dos penicos.) A tradição, contudo, cumpria-se, conforme mandava a “lei” dos bons usos e costumes. O grupo passava, então, à fase seguinte:

(ii)        Reis que do oriente vindes,
Que vindes a procurar?
Procuramos rei Herodes,
P’ra bem nos encaminhar.

Refrão
Aqui estamos nós, todos reunidos,
A cantar os reis aos nossos amigos.
Não é por interesse, é por amizade,
A cantar* os reis à sociedade  (*Cantamos).

Herodes como um malvado,
Como um travesso maligno,
Às avessas ensinara
Aos santos reis o caminho.

Refrão

Mas eles, como eram santos,
Seguiram o seu destino,
Guiados por uma estrela,
Até chegar ao Menino.

Refrão

O Menino está no berço,
coberto c’um cobertor.
Os anjinhos vão cantando:
Louvado seja o Senhor.

Refrão

A estrela se baixou,
Por cima duma cabana.
A cabana era pequena,
Não cabiam todos os três.
Refrão

[Tendo em conta a falta de rima e o resto do cantar, os dois últimos versos não devem pertencer a esta quadra, mas apenas à seguinte. Se alguém conhecer a quadra completa, agradeço, desde já, a indicação dos versos em falta.]

A cabana era pequena,
Não cabiam todos os três.
Adoraram o Menino,
Cada um por sua vez.

Refrão

Todos três lhe ofereceram
Ouro, mirra e incenso.
Nada mais lhe ofereceram
Porque Ele era o Deus imenso

Refrão

Finda a parte do episódio bíblico (narrado apenas, como se sabe, pelo evangelista Mateus), os cantores passavam à parte dos «Vivas». As quadras eram, geralmente, iguais às que “os pequenos” cantavam. As diferenças mais significativas situavam-se no maior ou menor atrevimento de algumas. E nos subentendidos de namoro com que, por vezes, o grupo procurava mimosear o rapaz ou rapariga “vivado”. A imaginação, o conhecimento das pessoas e (d)as circunstâncias permitiriam um leque mais ou menos variado e rico de «vivas». Quando a família era numerosa, era preciso ter algum engenho, já que não ficava bem repetir a quadra, mudando apenas o nome do felicitado. Registo, por isso, alguns exemplos de quadras, embora nem todas sejam lá muito exemplares. No post anterior, ficaram as «mais sérias».

(iii)        Nós vimos cantar os reis,
Não é só pelo dinheiro,
É pelas maçães da caixa [maçães, forma popular de maçãs]
E chouriços do fumeiro.

Refrão

Viva lá, menino/a [nome],
Çafatinho de *maçães [çafatinho, de açafate] [*pericos],
Debaixo da sua cama,
Lá lhe vão cagar os *cães [*pitos (por pintos)].

Refrão

Viva lá, *senhor [*menino + nome],
Raminho de bem querer,
Pegue na chave da *loja [*adega],
Venha dar-nos de beber.

Refrão

Estes reis não se cantam
Nem a rei, nem a fidalgo,
Mas nós vimo-los cantar,
Por ser ano melhor ano.

Refrão

E chegava-se à parte final, a das “despedidas», como a quadra anterior anuncia. Era, tradicionalmente, com a quadra que registei em (iv), no post anterior.

As versões de cantares de reis (“dos pequenos” - crianças e adolescentes - e “dos grandes” - jovens e adultos) serão, certamente, resultado de contactos entre gerações e e fruto de tradições colhidas e trazidas de outras terras. Nos meus tempos de criança, uma família (numerosa), pouco e pouco imigrada em Braga, de lá trouxe um novo refrão (letra e música) de reis, que, mesmo não tendo feito esquecer o acima transcrito, rapidamente por todos foi aceite e cantado. O resto (letra e música) era igual ao que por cá já era tradição oral e musical. Ei-lo:

     Festas alegres,
     Nós vimos dar.
     Ao Deus Menino,
Vimos cantar.

Então, até um dia destes. E-ternamente retornarei, pois. Mas já sem reis.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Cantares de reis – Dos “pequenos” e dos “grandes”

O espírito natalício, nos meus tempos de criança, durava quase dois meses. Começava em meados de dezembro, com a novena ao Menino e a montagem dos presépios, e terminava em fins de janeiro, com os últimos cantares de reis. Pelo meio, ficavam as conhecidas grandes noites das três grandes consoadas - Natal, Ano Velho (ou Novo) e Reis - e a celebração das respectivas efemérides, de natureza essencialmente religiosa, tanto canónica como popular.

Deixando de parte (ou para outra ocasião, talvez), o retorno a outros festejos da quadra, vou hoje, ternamente, recordar os reis, melhor dizendo, os cantares de reis que, em meados do século passado, se entoavam por cá, na minha terra natal.



Recorde-se que a Festa dos Reis celebra a «Adoração dos Magos», episódio que apenas o evangelista Mateus narra [Mt. 2, 1-12]. Por se tratar de relato bem conhecido e largamente representado, não será necessário recontá-lo. A igreja católica celebra, neste episódio, a epifania de Jesus. O povo, nos seus cantares de reis, evoca-o e reinterpreta-o.

Os cantares de reis, cá no Mato, começavam na noite de cinco para seis de janeiro, após a ceia. Havia dois tipos destes cantares: os “reis dos grandes” e os “reis dos pequenos”. Os primeiros eram cantados por grupos de jovens e adultos. Os segundos, por grupos de crianças adolescentes. Eram formados, normalmente, por conterrâneos do sexo masculino. De vez em quando, lá aparecia também um ou outro grupo de freguesias circunvizinhas. Além disso, os “reis dos grandes” tinham uma composição textual mais desenvolvida. Os “reis dos pequenos” não eram acompanhados por instrumentos musicais, ou então por alguns rudes instrumentos ou como tal considerados.


Os cantores de uns como de outros eram, regra geral, em número reduzido. Raramente ultrapassavam a meia dúzia. Os “reis dos pequenos”, sendo constituídos por crianças pobres, se fossem muitos, pouco tocaria a cada um da gratificação/esmola recebida. Gratificação/esmola que era logo ali, ainda à porta, janela ou postigo do “patrão”, irmãmente repartida entre os seus elementos (“pataca a mim, pataca a ti”). O dinheiro era a “paga” habitual e mais desejada. Mas havia quem oferecesse produtos alimentares, como pães de trigo, pedaços de boroa; ou agrícolas, como uma saquita de batatas ou de feijões. Os “reis dos grandes”, por sua vez, funcionavam sobretudo como pretexto e aperitivo para um sarau de são convívio entre amigos e vizinhos, com bons comes e muitos bebes de permeio, na casa do anfitrião.

Os “pequenos” apareciam sem aviso nem sinais. Os “grandes” resultavam, geralmente, de combinação antecipada. Era, por vezes, o próprio anfitrião que convidava o grupo, geralmente formado por amigos que sabiam tocar este ou aquele instrumento (concertina e/ou viola e/ou cavaquinhos e/ou ferrinhos e/ou tambor…) E assim apareciam, uns e outros, sem ensaios e cuidados. Todo o “sucesso” dependia do jeito e habilidades de cada um e do conhecimento que todos tinham desta tradição oral. O grupo dos “grandes” ainda ia afinando, pelo caminho, vozes e instrumental. Mas os “pequenos”, esses batiam casas e caminhos, em correrias silenciosas, forma também de espalhar o frio e os medos. Por estas e outras é que, na mesma noite, “os pequenos” podiam ir cantar os reis a várias casas, enquanto “os grandes” se ficavam, geralmente, por uma só.

Resta referir, terminando esta brevíssima introdução, que não caía bem, cá na sociedade de Mato, recusar os cantares de reis. Os dos “pequenos”, porque se negava esmola, não se cumpria a caridade. Os dos “grandes”, porque era uma descortesia, ou um sinal de forretice ou avareza, senão mesmo de pobreza. E naquele tempo, os reis não se cantavam, como se faz agora (não ainda cá no Mato), para angariar fundos para obras da igreja ou para solidariamente socorrer necessitados. Mas pode bem ser que, com o processo de empobrecimento em curso, oficialmente decretado, talvez se volte a ter à porta grupos de pobres crianças cantando os reis por esmola.

Cá na minha terra natal, os cantares de reis, entoados pelos grupos dos “grandes”, apresentavam a seguinte organização: (i) uma parte de natureza fática, através da qual os cantores estabeleciam contacto com o anfitrião e dele obtinham autorização ou recusa para cantar; (ii) uma parte com a narração cantada/contada (em verso) do episódio dos “reis magos”; (iii) uma parte de “vivas”, destinadas a elogiar o “senhor da casa”, esposa, filhos e outros que nela também habitassem ou nessa noite nela estivessem; e (iv) uma parte também de natureza fática, mas de fecho ou fechamento, através da qual o grupo se despedia. Os “reis dos pequenos” apresentavam, como disse, uma versão mais curta, não incluindo, geralmente, (toda) a parte (ii). (Na transcrição dos cantares, indicarei cada uma destas partes, utilizando esta numeração. Assinalarei com *, por outro lado, variantes encontradas.)

Deixando para o próximo post, por mais longa, a versão dos “grandes”, vamos à dos “pequenos”. Ora então era assim. Chegados a uma casa, um rapaz do grupo, gritava, até que o proprietário (normalmente tratado por “patrão” ou por “senhor [+ nome, ou apelido]”, quando conhecido) correspondesse:

(i)         - Ó *patrão, quer que cante os reis? [*senhor + nome ou apelido]

Se a resposta fosse negativa, o rapaz insistia, habitualmente, mais uma ou duas vezes. Continuando o “patrão” na recusa, o rapaz pedia então que lhe dessem, ao menos, “a esmolinha”. Casos havia, segundo informantes, que, por vezes, os donos da casa, por razões de doença ou de luto, recusavam o cantares de reis, mas não a gratificação/esmola.

Sendo a resposta positiva (que habitualmente acontecia), o grupo dava início, de imediato, ao seu cantar. Começava, geralmente, o “chefe” (podem chamar-lhe solista e/ou porta voz), aquele que tinha feito a pergunta/pedido. Seguia-o o grupo, em coro, pelo menos no refrão. Nem sempre afinadinhos, é verdade. Mas lá iam cantando e às vezes sorrindo.

(ii)         Senhores da casa, gente nobre,
Escutareis e ouvireis,
Ouvireis novos cantores* (*pastores)
Que vos vêm cantar os reis.

Refrão
Aqui estamos nós, todos reunidos,
A cantar os reis aos nossos amigos.
Não é por interesse, é por amizade,
A cantar* os reis à sociedade  (*Cantamos).

Os “reis dos pequenos”, como disse, saltavam a narração do episódio dos magos.
Passavam, por isso, para a parte dos “vivas”, das felicitações, acompanhados, por vezes, de pedido(s).

(iii)         A rolinha vai rolando,
Por cima *duma cebola [*dum laranjal].
Viva lá, senhor [nome],
*A mais a sua senhora [*E toda a família geral].

Refrão

Seguiam-se os “vivas” aos filhos, segundo a hierarquia da idade, isto é, do mais velho para o mais novo. [Cá o rapaz era, por isso, sempre o último.] Os pequenos cantores, chegavam, por vezes, a perguntar o nome dos presentes, bem como se já tinham sido todos “vivados” ou se havia ainda “mais alguém de fora”. Apresento, de seguida, alguns exemplos de “vivas”.

Viva lá, menina [nome],
Raminho de pessegueiro,
As flores lhe vão caindo
Em redor do travesseiro.

Refrão

Viva lá, menina [nome],
Raminho de salsa crua,
No catre da sua cama,
Põe-se o sol e nasce a lua.

Refrão

Viva lá, menina/o [nome],
Raminho de palma branca,
Seu corpinho é de neve,
Sua alminha já ‘stá santa.

Refrão

Viva lá, menino [nome],
Casaquinha de veludo,
Meta a mão no seu bolsinho,
Bote pr’a cá um escudo.

Refrão

“Vivados” todos, o grupo despedia-se, com a quadra seguinte ou com um “Viva geral!”.

(iv)        Vamos dar as despedidas,
Na *folhinha do café, [*horinha]
Para o ano cá voltamos [*tornamos],
Doze meses pouco é.

Refrão

E-ternamente retornarei, em breve, com a versão dos “reis dos grandes”.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Jogos de Natal - A pinhões e… “bib’ò-belho!”

Os últimos dias do outono e os primeiros do inverno, cá no Mato, sempre foram muito curtos. E nos meus tempos de criança, muito mais. Às cinco da tarde, era já noite. E de manhã, ver-se um palmo à frente do nariz, só aí pelas seis, sete horas. Então, em tempo de chuva, a potes ou molha-tolos, todo o dia parecia noite. A gente, por isso, mal saía do ninho, logo a ele tornava. Nem deixava esfriar a palha.


Não havia eletricidade, evidentemente. As únicas luzes de alumiação eram a fogueira, na pedra da enorme lareira, sob a colossal chaminé; as pequenas e pobres candeias de mão, de vidro ou lata; os médios lampiões e candeeiros, com mangas de vidro contra ventos e aragens, protegidas (ou não) por arames. Tudo a petróleo, onde a torcida era posta de molho, para bem arder, depois, a ponta espevitada. Ou, então, o candeeiro a carboneto (gasómetro, aciteleno) ou, depois, o petromax, também bêbado de petróleo, ou, depois, o candeeiro a gás. Por vezes, quando faltava o combustível ou o raio do aparelho teimava em não acender, deitava-se mão ao coto da vela que sobrara da última procissão delas ou, caso já não houvesse, até uma pinha dava. Tanto brava como mansa. Estas, porém, debulhadas no Natal, eram mais destinadas a implorar, acesas, a proteção de S. Jerónimo e Santa Bárbara, virgem, nas tenebrosas noites dos relâmpagos terríveis e trovões aterradores.
Cá na terra, por conseguinte, também não havia televisão. A cama, por isso, era o palco predileto das diversões noturnas. P’r’a caminha, logo e em força, iam, assim, todos, cedinho. Mas antes, os homens ainda eram obrigados a verificar a cancela da capoeira, se tinha o cravelho metido no sítio – não fosse a matreira raposa encontrar o assalto facilitado! - e as cortes do gado, se bem trancadas. Era preciso, antes ou depois, botar a lavadura ao reco e ao tirone, cão de guarda, e fechar portas e portões, cancelas e postigos. Às vezes, ficava-se um tempito a dar à língua. Era quando eu pedia que minha mãe e/ou minhas irmãs [meu irmão, depois da ceia, parar em casa, tó rola, era o paras] voltassem a (re)contar-me a história do «Zé Grande e Zé Pequeno», a do «João Pescador», a do «João Ratão”, que só depois soube que era a mesma que a da “Carochinha”. No fim de contos, perdão, contas, todas elas são carochas. [Um dia, a elas e eles retornarei. E-ternamente aqui, pois claro!]
Só nas noites de consoada – Natal, Ano Novo (que servia também para correr o velho) e Reis – as coisas tinham outras tarefas e cerimónias. Até cá o puto tinha direito a um dedal de vinho fino, para acompanhar a aletria e as rabanadas. E a uma xicarazinha de café, «Q’uma bez num som bezes, ó!»
Nesses dias, melhor, nessas noites, portanto, as noites eram bem maiores, melhor direi, bens maiores. Enquanto as mulheres preparam a ceia e fazem as doçarias, os homens carregam a lenha que há de manter o lume vivo e a cozinha quente e alumiada. Uma boa cepa de carvalho basta, atrás do lume, potes e panelas, desde que acompanhada por uns bons braçados de canhotas.


Ora, era nestas noites, sobretudo na do Natal, que eu assava as pinhas mansas. Que cheirinho, huuum… Delas retirava – Ai, que pelam! – os tão apetecidos e saborosos pinhões. Comida a meia dúzia da prova, com eles praticava, em casa, os jogos do rapa, também conhecido como da piurra, e do par ou pernão, os quais, depois, no terreiro, havia de jogar com os traquinas da minha igualha.
- “Bai” uma partidinha de rapa ou piurra?
A piurra é, no fim de contas, um pequeno pião. Porém, não é lançada com corda. São as falangetas manuais  do polegar, indicador e/ou médio (ou dos três em conjunto), consoante a habilidade e as competências de cada um, que a põem à rodopiar. Tem também uma forma cónica, mas apresenta quatro lados (faces), planos e lisos. Mede entre 4 e 5 cm do bico ao rabo (ou deste a aquele – a gosto do freguês) e 4 a 9 cm2, em cada lado/face. Cada face tem inscrita uma destas letras - R, T, D, P - iniciais, respetivamente, das formas imperativas Rapa, Tira, Deixa, Põe.

Se não houver pinhões, podem ser utilizados outros prémios (amendoins, figos de seira, uvas passas, avelãs, nozes, amêndoas, pistaches, fisalis…). Por mais saborosos que os suplentes sejam, festas natalícias sem os primeiros… huuumm… não sabem bem. Assim devendo ser, é necessário, para que a brincadeira dure, uma boa manada ou bolso de pinhões. Dos mansos, ou seja, daqueles que se retiram das pinhas mansas, ou seja, daquelas que se colhem nos pinheiros mansos, ou seja, naqueles que têm uma copa ampla e arredondada, assim como um enorme guarda-chuva ou um cogumelo gigantesco. Aqueles a que os botânicos, lá nos seus saberes e dizeres, batizam de “pinus pinea”. E, já agora, o bravo de “pinus pinaster”. [Tem graça, menina Graça! O manso é “pinea”; o bravo “pinaster”. Bonito, sim senhor! Ai, estes botânicos!... Levaram na pinha, com certeza!]

Para sacar os pinhões das pinhas é preciso colocá-las sob(re) calor ou fogo (no meio das brasas ou borralho). Perdem a resina e as escamas (pétalas) abrem-se, como um botão de rosa. É lá dentro, bem escondidos na raiz delas, que eles, como dois gémeos, foram gerados e se desenvolveram. Alguns cuidados (poucos) são, entretanto, de observar. Usar luvas adequadas, isto é, que protejam as mãos de calores, brasas, resinas a arder, cinzas e pós. Os marotos, todavia, trazem sempre presa ao corpo uma película (asa) e vêm embrulhados num pó acastanhado escuro, que suja e enegrece as mãos. Por fim, devido ao calor e ao esforço (embora pequeno, Caros Pequenos) os dedos podem ganhar bolhas. Mesmo com luvas. Fala quem sabe, com saber de muita prática.  
Agora, o jogo propriamente dito. Cada parceiro entra com o mesmo número de pinhões. Dois, por exemplo.


Coloca-os sobre a “mesa” (que pode não sê-lo, propriamente). Começa o jogo quem o grupo indicar. Ou aceitar, se houver autopropostos. No caso de os jogadores serem apenas dois, a vez é alternada. No caso de três ou mais, segue-se o que se encontra à direita do primeiro e, depois, com idêntica prioridade, os restantes. Volta-se ao primeiro e o jogo prossegue tal como foi dito. Enquanto houver pinhões na “mesa”, evidentemente. E vontade de jogar!
Uma partida pode não passar da primeira jogada. Se ao primeiro jogador logo calhar a sorte de ver o R[apa]. Neste caso, o sortudo é o único totalista dessa partida de europinhões. É, aliás, o que sempre acontece a quem esta face da piurra sorri, seja na primeira ou nas restantes jogadas.


E nova jogada, nova partida, qu’esta terminou! Toca a pôr a piurra a rodopiar, que se for colorida, dá imagens bem bonitas. Saiu agora a face D[eixa]. Paciência: não rapa nem tira, mas também não põe, continuando em jogo. Chega, assim, a vez do seguinte. Ora bolas, saiu a face P[õe]. Aqui, há duas hipóteses. Os parceiros é que democraticamente optam por uma. O azarado põe o mesmo número de pinhões (i) com que entrara na partida ou (ii) que se encontra na “mesa”, na altura da jogada. Esta era a minha hipótese preferida. Porque, se saísse o R, também ele não rapava só os pinhões com que entrara, mas todos os que na mesa estivessem. Que bem poderia ser um montão deles. Tira os pinhões com que entrara no jogo apenas a quem sai a face T[ira]. Pelo menos, o investido já cá canta!
- E se jogássemos, agora, o par ou pernão?
Vamos a isso. É assim:
Cada jogador, depois de decidido quem começa, apresenta, em mão fechada (pode usar as duas), mas (por causa de coisas) sempre com os dedos para cima, um número X de pinhões e pergunta ao(s) parceiro(s): “Par ou pernão?

Dadas as respostas, o jogador abre a(s) mão(s) e contam-se os pinhões.
Se 2 ou múltiplos de 2, é par. Ganha quem assim apostou. Se o número for ímpar, ganha quem apostou pernão. Alto lá: ir de mão(s) vazia(s) não vale. É desrespeitar os parceiros. Devia levar um murro. Mas como não passa de (mais uma) brincadeira… Estás perdoado!

Jogo limpo e simples. Simplicíssimo, simplesmente simplex, diria o outro. Basta palpitar e acertar. E se perder, p'r'ò ano há mais.
Foi, certamente, com estes jogos que, por um lado, aprendi a contar e, por outro, a saber usar os dedos, as mãos, a cabeça, etc. e tal. E com elas fazer as brincadeiras confessadas e confessáveis, além das inconfessáveis, obviamente. Todas, mas todas, porém, agradabilíssimas. Sempre! Oh, s’eram!...
Com a crónica da crise (ou a crise crónica) anunciada e em prática, talvez não seja má ideia recuperar, neste Natal, estes velhinhos jogos tradicionais. Sempre atrativos, porque também fazem parte do nosso património (cada vez mais) imaterial. Mesmo sabendo-se que o troféu não passa dum pobre punhado de pinhões.
Aqui deixo, por isso, os manuais de instrução, com votos de Boas Festas. Nos tempos que correm, são os únicos presentes que, ludicamente, posso oferecer. E “bib'ò-belho!”