terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Viana & Camilo 009


Camilo e os irmãos Barbosa e Silva [08]



No ano de 1852, a não se terem perdido ou destruído outras, Camilo escreveu apenas duas cartas a José Barbosa e Silva: uma datável de 16-I e outra de 25-IV. Camilo não costumava datar a correspondência. Os dias indicados são, no primeiro caso, do carimbo do correio e, no segundo, datação que Alexandre Cabral encontrou no manuscrito, embora julgue «não ser do punho de Camilo.» [Cabral, 1984 (I): 58]. Xavier Barbosa, que não inclui a primeira em Cem Cartas de Camillo, data a segunda de 22-IV. [Cf. Barbosa, 1919: 106]
Nestas cartas, o escritor volta a incentivar o amigo de Viana à escrita e a apoiá-lo nas suas iniciativas ou projetos neste domínio, sem desfalecimento nem olhar a males de inveja.
Já me referi, brevemente, à primeira carta, ao abordar a penúria em que viveria Camilo, sobretudo na primeira metade da década de 1850. É a parte final da carta, que por isso, ora não reproduzo. [Ver Camilo & Viana 005] Ela, porém, começa assim (omito a saudação inicial):

«Suspendeste já essa bela estreia folhetinística? Calou-se a inspiração do Minho no coração fecundo de seu filho? Não posso crer, que eu sei o que são essas delícias, e o que pode a tua alma, cheia de poesia, e reservada até hoje para muito sentir e fazer sentir.» [Cabral, 1984 (I): 56]
              
Camilo, na última carta de 1851 (14-XI), incentivava o seu, então, grande amigo de Viana a que comunicasse ao público as impressões que deveria ter trazido de Inglaterra, de onde teria chegado com o coração a transbordar de inspirações. [Ver Camilo & Viana 008] Muito provavelmente, não é em relação à publicação dessas possíveis impressões que Camilo se refere nesta primeira carta de 52. Para tal, o amigo não precisaria de se inspirar nas delícias do Minho. Barbosa e Silva não deve ter publicado qualquer folhetim sobre a sua deslocação a Londres. Assim sendo, o mais certo é ele ter suspendido a publicação de Cenas Contemporâneas da Vida Íntima de Lisboa / Os Bailes, que vinha publicando n’O Nacional. (Ver idem e/ou Cabral, 1984 (I): 51-53). Mas também poderá estar a referir-se a textos que, sob o título de «Revista de Viana», Barbosa e Silva tinha começado a publicar no mesmo jornal, «desde o começo do ano, pelo menos», como a seguir se lerá. [Cabral, 1984 (I): 58]

 Barbosa e Silva não escreveria com a facilidade nem com a abundância de Camilo. A escrita não seria a sua primeira vocação. A política e a diplomacia, no seio do partido progressista, constituiriam, certamente, os seus objetivos de vida. Recorde-se que o benjamim dos Barbosa e Silva fora à Exposição de Londres, como se viu, em representação oficial de Portugal. Depois, foi adido de Portugal em Paris e por três vezes sucessivas deputado às Cortes, por Viana. Foi ainda nomeado representante de Portugal em Istambul, mas não chegou a ocupar o cargo. Faleceu, de tísica mesentérica, em 1865. [Cf. Vasconcelos, 1999: 46-47]

A fotografia de Camilo tem a data de 1857.O ano de nascimento está errado: não é 1826, mas 1825. O próprio escritor, durante largo tempo, indicou o primeiro ano. Mas sabe-se como ele errava frequentemente as contas.

Tenho vindo a referir-me às relações amigáveis entre Camilo e José Barbosa e Silva, centradas sobretudo na atividade da escrita, jornalística e/ou literária. Releva, nesta carta, a crença de Camilo na capacidade poética do amigo vianês. Tal sentimento há de repeti-lo em cartas futuras e outros escritos, como a seu tempo se verá/lerá. Barbosa e Silva era para Camilo essencialmente poeta.
Idêntico sentimento de esperança nos dotes literários de José Barbosa e Silva se encontra na segunda carta de 1852, sem contudo a transcrever na íntegra, por a parte final não dizer respeito à escrita do amigo. (Omito saudação inicial.)

«Avaliei os teus desgostos, quando li a tua ultima revista. Quando te forçaram a tanto, m[ui]to fel te vertêram no coração! Ha um dito popular, que é uma consoladora maxima para um escriptor – antes mal de inveja q[ue] mal de piedade. Terras pequenas tem no seu pequeno espaço quanto ridiculo abrangem os muros de Pariz. Deus nos livre das socied[ad]es de soalheiro, que discutem na loja do mercador a vida do homem, como uma tribu d’arabes ociosos discutem o andam[en]to da lua, q[ue] eles la chamam fingari. Continua, menos colérico, por q[ue] o desprezo é a melhor coroa do teu triunfo.
Eu cuidei q[ue] o Ecco do Lima não era cousa tua. Se, contra os teus receios, o fizeres sahir do prelo, terei m[ui]ta honra em ser uma vez p[o]r outra la admittido.
O prospecto, q[ue] me mandas, vou dar-lhe a vida errante q[ue] eu não posso ter com ele. Vivo m[ui]to retirado: caza e aula e convento – não tenho outra vida.» [Barbosa, 1919: 105-106. Também em Cabral, 1984 (I): 58-59]
[No final desta carta, Camilo volta a referir-se a José Augusto Pinto de Magalhães e à sua paixão por Fanny Owen, de que me ocuparei, oportunamente, a propósito de outros textos camilianos, que não de epistolografia propriamente dita. Refere-se também a um tal Lopes Cabral, de quem já disse o principal, em Camilo & Viana 005.]

Só a leitura da «última revista», escrita por Barbosa e Silva, já que as cartas que dirigiu a Camilo foram destruídas, poderá ajudar a compreender o mal de inveja sofrido e sentido. Ter-se-á tratado, segundo a carta, de inveja em domínios do literário. Falta saber porquê, com base em quê e para quê. Terá sido pura maledicência política, de algum adversário regenerador? Só depois de consultar e analisar os textos do progressista Barbosa e Silva, que espero reunir, se poderá saber.
Camilo mostra a sua solidariedade para com o amigo e consola-o, acreditando no seu triunfo sobre/contra as cabaneirices (a palavra é minha) ou coscuvilhices típicas dos meios pequenos.
«Eco do Lima» seria, muito possivelmente, o título para jornal em que Barbosa e Silva andaria a pensar, antes de optar pelo de Aurora do Lima, como se sabe e de que depois falarei. O «prospecto» enviado deveria destinar-se a angariar assinaturas para o tal Eco, onde Camilo manifesta estar disposto a colaborar, uma vez por outra. Procurei em Publicações Periódicas Vianenses, excelente livro, a todos os títulos, de Rui A. Faria Viana e António José Barroso, referência sobre a existência daquele título em Viana do Castelo e não encontrei. O mais próximo que aí se encontra referido é Echo do Povo, publicado entre 1877 e 1879. E depois dele, outros Ecos houve, com maior ou menor duração.[Cf. Viana & Barroso, 2009: 202-215] Eco do Lima foi, saiba-se já agora, título de jornal que se editou em Ponte de Lima, entre 1866 e 1882, e encontra-se acessível online, aqui.
 O comentário de Camilo a respeito do prospeto não deixa de ser interessante, ao confessar que não tem «vida errante», pois vive «muito retirado: casa e aula e convento». Perguntar-se-á: aula, que aula? No seminário, onde se tinha voltado a inscrever em 1851? E o convento? Será convento usado aqui como sinónimo de seminário? Mas é também possível que Camilo esteja a referir-se à casa religiosa (Convento de S. Bento da Ave-Maria) onde se encontrava Isabel Cândida Vaz Mourão, «que manteve com Camilo uma prolongada relação amorosa. Conheceram-se no outeiro* de 1850, ao regressar de Lisboa.» Consta que se tratava de uma freira «feia», mas, em contrapartida, «culta e rica», tendo dedicado a Camilo «uma afeição duradoira.» [Cabral, 1989: 427-428]
{* Outeiros ou abadessados eram «festivais de arte e culinária, que duravam em regra três dias», organizados «por altura da (re)eleição das abadessas dos respectivos mosteiros» e a que «concorriam os poetas mais prestigiados de mistura com os novatos. […] / Camilo frequentou, com assiduidade e durante um largo período, os “outeiros”, de extraordinária ostentação e brilhantismo.» [Cabral, 1989: 13]}
Hei de voltar a referir-me a esta soror Isabel Cândida em post(s) futuro(s).
Continuarei, no próximo, a tratar das relações entre Camilo e os Barbosa e Silva, tendo como principal corpus a correspondência enviada pelo primeiro aos segundos e, em particular, ao benjamim da família. José Barbosa e Silva foi o único dos irmãos que se interessou por questões da escrita, jornalística e literária.

Leituras:
BARBOSA, Luís Xavier, 1919: Cem Cartas de Camillo. Lisboa: Portugal-Brasil Limitada, Sociedade Editora.
CABRAL, Alexandre, 1984: Correspondência de Camilo Castelo Branco com os Irmãos Barbosa e Silva (vol. I). Lisboa: Horizonte.
----------, 1989: Dicionário de Camilo Castelo Branco. Lisboa: Caminho (2.ª ed.: 2003).
VASCONCELOS, Maria Emília Sena de, 1999: «Velhos vultos de Viana». Cadernos Vianenses, Tomo XXV. Viana do Castelo: Câmara Municipal de Viana do Castelo; pp. 45-54.
VIANA, Rui A. Faria & Barroso, António José, 2009: Publicações Periódicas Vianenses. Viana do Castelo: Câmara Municipal.

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

haVer o mar 009


009 - «Scolymus hispanicus»










Nota - Todas estas fotografias foram obtidas a norte da cidade Viana do Castelo, na orla costeira (areais e/ou dunas e/ou seixais e/ou terrenos) da freguesia de Areosa. Em meses de primavera e sobretudo de verão, evidentemente.

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Viana & Camilo 008

Camilo e os irmãos Barbosa e Silva [07]


A amizade entre Camilo Castelo Branco e José Barbosa e Silva foi-se estreitando, como já referi em post anterior, ao longo dos anos. Nem sempre, porém, com a mesma intensidade. Aos pedidos de socorro nas aflições económicas, sobretudo durante o ano de 1950, e para o financiamento (e compra, em parte) da primeira edição de Um Livro (1854), Camilo foi correspondendo com palavras amáveis de reconhecimento e gratidão, mas também com apoios e incentivos às incipientes produções literárias do amigo de Viana. Aliás, também Camilo, no início das suas relações com o Barbosa e Silva, ainda não gozava do nome que depois veio a alcançar, com justiça, na literatura portuguesa. Então, não passaria de um “jornalista literário” e de um aspirante a poeta, mais conhecido pela sua vida noturna de boémio, de romântico aventureiro e extravagante.

Camilo publicou e/ou apadrinhou, todavia, os «primeiro balbuceios poéticos» de José Barbosa e Silva, em vários jornais, conforme se mostra no quadro seguinte, segundo regista Alexandre Cabral [1984 (I): 35]:

Poema
Data
(Mês, Ano)
Jornal
Título
N.º
Páginas
Um Adeus de Amigo
Junho, 1850
A Semana1
24
191-192
Não Chores
»
»
25
200
Saudades…
»
»
29
231-232
No Álbum do meu Prezado Amigo
J. A. Pinto de Magalhães
Agosto, 1850
»
31
248
O meu repouso
Setembro, 1850
»
35
279-280
Que me queres?
Outubro, 1850
»
41
382
A minha crença
Maio, 1853
A Cruz2
19
Sem indicação
A uma cruz
Julho, 1853
»
30
Sem indicação
1 A Semana foi um jornal de Lisboa que começou a ser publicado em janeiro de 1850. Camilo foi um dos seus principais colaboradores, com textos em prosa e verso, sobretudo durante o ano de 1850. Foi nele que veio a público, em folhetins e também em separata, parte do primeiro romance, Anátema, depois. Em volume, no Porto, no ano de 1851. Neste ano, António da Silva Túlio assume o cargo de diretor de A Semana e Camilo deixa de figurar nas colunas do jornal. Entre ambos, gerou-se acesa polémica, com ataques e contra-ataques, no mesmo semanário. [Cf. Cabral, 1989: 594-5 e 32; 1981 (II): 101-112 e Barbosa, 1919: 103-4149-157]
2 A Cruz foi um «semanário religioso», de que Camilo foi redator, juntamente com Augusto Soromenho. O primeiro número saiu em 08-01-53. Observa Cabral que, neste periódico, se encontram poesias de José Barbosa e Silva, «com apresentação do romancista.» [Cabral, 1989: 225]

Camilo nunca faltou, por outro lado, com estímulos ao amigo, para que escrevesse e publicasse. Ao mesmo tempo, seguia-lhe, com interesse e atenção, os textos que ele ia publicando, entretanto, noutros periódicos.
Vejamos como este interesse se manifesta na correspondência que Camilo escreveu ao benjamim dos Barbosa e Silva, ao longo do ano de 1851.
Em carta de 16-III, primeira deste ano, escreve, depois de se queixar que tem «apenas um symptoma» da existência do amigo – «os teus escritos»:

«Eu admiro o teu ultimo folhetim – Não te perdõo o mysterio do nome. Divulguei-o, p[o]r que havia interesse em conhecel-o. Tenho pena, porem, q[ue] escrevas no N[acional] onde actualmente rabiscam graves pulhas. Se quizesses escrever nos folhetins do Jornal do P[ovo] – p[o]r ventura o unico soffrivel d’aquelle nome, deverias enviar-me os manuscriptos. O teu passeio á Italia em q[ue] ficou? Matou-te a preguiça as inspiraçoens?» [Barbosa, 1919: 102-3. Também em Cabral, 1984 (I): 50 e 51]

Pressente-se, nesta carta, ter havido um esfriamento na amizade entre ambos. O silêncio de Barbosa e Silva não se deverá apenas à viagem pela Europa. Talvez pretendesse também um relativo afastamento de Camilo. Recorde-se que, até à data desta, das 10 cartas enviadas ao amigo de Viana, em seis (pelo menos) pedia-lhe dinheiro (ver Camilo & Viana 005). Repare-se, ainda, como termina a carta: «Se me responderes, serei depois mais massador, queres?» Se me responderes… mais massador… É provável que Barbosa e Silva não estivesse mais disposto a ser «cravado» por Camilo, gastador compulsivo, ao que parece.
É o escritor, por isso, que toma a iniciativa da reaproximação. Sabe da chegada de Barbosa e Silva apenas pelos escritos que o amigo publicava n’O Nacional, jornal portuense onde Camilo também assinava folhetins. Fora, aliás, um dos seus colaboradores mais regulares e durante mais tempo, «apesar de “arrufos” ocasionais» [Cabral, 1989: 436], devido, certamente, aos tais pulhas que nele rabiscavam. Camilo escrevia, ao mesmo tempo, no Jornal do Povo, outro periódico portuense, mas de tendência política («cartista»), adversária da tendência («liberal/progressista») d’O Nacional. Compreende-se, por isso, que o jornalista Camilo assinasse seus folhetins, no Jornal do Povo, «usando quase sempre pseudónimos». Dois deles foram Anastácio das Lombrigas e Anacleto dos Coentros. [Cabral, 1989: 340]

Retomando as relações entre Camilo e Barbosa e Silva, verifica-se que a frieza deu lugar, com a reaproximação, a manifestações de felicidade e reconhecimento, bem patente logo no início da carta seguinte, datada do Porto, 20-IV-1851.

«Meu caro Barbosa

Não te direi por que não posso o prazer que da tua carta senti. Basta dizer-te – que a tua imagem para mim é alguma cousa superior às cousas do mundo – És um ideal de amizade e de protecção para CCB –
Quem me disse que os artigos eram teus – foi um destes palpites literários que nunca me mentem. Adivinhei. Depois o Basto confirmou. Não se poderá saber quem é a Violeta!? É um ente de imaginação… um sonho… uma evaporação da tua alma tão poeta!? Diz [.] / […]» {Cabral, 1984 (I): 52-53. Não consta em Barbosa, 1919. Barbosa e Silva respondeu à carta de 16/03 de Camilo, no dia 30 do mesmo mês, de Lisboa, onde continuava a viver. Camilo havia já regressado ao Porto. Ambos tinham vivido e convivido na capital, durante largos meses, em 1850. «Camilo na labuta das letras e José Barbosa a flanar pelos meios aristocratizantes». [Cabral, 1984 (I): 35]}

Alexandre Cabral é de opinião que o «folhetim» e/ou «artigos» de José Barbosa e Silva, a que se refere Camilo, nestas duas cartas, dizem respeito ao romance «Cenas Contemporâneas da vida íntima de Lisboa / Os Bailes», «em curso de publicação n’O Nacional», da autoria de Barbosa e Silva, apesar de publicado «sem qualquer assinatura». [1984 (I): 52]
Foi a «referência à Violeta [na carta de 20-IV-51] – comenta depois Cabral – que nos elucidou quanto à autoria das Cenas contemporâneas da vida íntima de Lisboa / Os Bailes […]. De facto, Violeta é uma personagem do romance. No capítulo VII (O Nacional, n.º 76, de 2/IV/1851), há esta passagem: / “Entretanto Violeta me contemplava com a força da desesperação; havia já duas horas que eu a castigava impiamente com uma indiferença insultante!”» [Cabral, 1984 (I): 53]

Na carta seguinte, datada do Porto, 17/V/51, Camilo não se refere à atividade literária do amigo de Viana. Envia-lhe, todavia, oito exemplares do livro Inspiraçoens, para que o distribua, «a fim de que algum teu amigo diga alguma cousa bem ou mal. Como estás amigo com os litteratos da Semana lembro-te estes.» [Barbosa, 1919: 1033. Esta carta encontra-se também em Cabral, 1984 (I): 54. Este investigador, porém, transcreve uma «NB», omissa pelo sobrinho de Barbosa e Silva, Luís Xavier Barbosa, nas Cem Cartas de Camilo (1919). Nela, Camilo pede ao amigo vianês uma receção condigna para Rodriguez de Fuentes, «filho do cônsul espanhol» e «portador» da carta. Referir-me-ei a este cavalheiro, em post(s) futuro(s), quando abordar textos (duas narrativas), em que Camilo se refere aos trágicos amores do casal Fanny Owen / José Augusto Pinto de Magalhães, onde se encontram referidos José Barbosa e Silva, num, como interlocutor, e, noutro, Viana do Castelo.]

E Inspiraçoens, que livro é?
É uma coletânea de poemas. Vinte e seis, seguidos de um «Protesto», em prosa. Publicado em 1851, o livro é composto, na totalidade, por poemas que Camilo tinha já dado a lume em vários jornais, incluindo em A Semana. E, em 1854, voltou a incluí-los, à exceção de «Tentação», na edição de Duas Ephocas na Vida (rosto; na capa está da Vida). Dois destes poemas – «As lamentações de Jeremias» e «O templo» – voltou a publicá-los, anos depois, n’A Aurora do Lima. O primeiro no n.º 195, de 08/IV/57; o segundo no n.º 341, de 31/III/58. Referir-me-ei, a estes dois poemas, com maior e melhor atenção, quando tratar da colaboração de Camilo n’A Aurora do Lima.
Em Inspirações, os dois referidos poemas encontram-se nas páginas 56 a 63 e, em Duas Épocas na Vida, nas páginas 174 a 182. Neste último livro, Camilo não apresenta prefácio nem posfácio, dividindo-o, porém, em duas partes distintas: «Preceitos do Coração» (pp. 1-126) e «Preceitos da Consciência» (129-243), que depois, em 1865, saíram em edições autónomas. Também em Duas Épocas o autor reúne poemas já publicados em periódicos.

Inspirações é constituído por um conjunto de «trovas», onde, segundo o próprio autor confessa no «Protesto», um «mesmo pensamento» as percorre e domina: «a desgraça moral – o desgosto profundo, o peso da vida.» Prevenindo-se, entretanto, contra o eventual silêncio da crítica, escreve:

«Se ámanhã me disserem que nada prestam estas paginas copiadas da minha alma – esta revellação confusa dos meus insondaveis mysterios – eu não maldigo o meu livro nem choro morta alguma das minhas desvanecidas esperanças. / Nada espero d’aqui. / Bem longe d’estrear-me para melhor fortuna em novos versos, eu protesto e juro ao leitor, sob a mais sancta das minhas crenças no céo – já que d’outras não tenho – que não verá já mais poesia minha. / A crytica deve levar-me em saldo de conta este serio juramento, se em má hora vier, armada d’armas negras, pôr-me fóra do glorioso torneio dos poetas. / Fóra já eu estou, e parece-me que estava há muito.»

E termina, protestando com estas palavras:

«Estas minhas inspirações gemiam agonisantes no seu trespasse para o silencio, que é a morte do poeta. / Morreram, e eu morri com ellas.» [Branco, 1851: 131-2]

Como sabemos (ver Camilo & Viana 007), independentemente da boa ou receção de Inspirações pelos críticos, Camilo nunca deixou de poetar, até ao fim da vida. Juras e protestos vãos. Quem há de acreditar nestes incorrigíveis fingidores, Fernando Pessoas?...

Há uma questão que aqui se deve pôr: por que raio havia Camilo de pedir ao amigo de Viana uma "cunha" junto dos «litteratos da Semana», para que eles falassem, bem ou mal, de Inspirações? Quando se sabe que o escritor tinha sido, «durante o ano de 1850, o principal redactor» do semanário. [Cabral, 1981 (II): 101] Mais: quando se sabe que, em A Semana, além de parte do Anátema, como vimos, tinha publicado também várias poesias, incluídas agora no volume.
Xavier Barbosa é de opinião que «ponderadas […] as contrariedades que sobrevieram» à estreita da publicação de Anátema, «salientando-se Silva Túlio, que em 1851 dirigia a Semana,  pela forma aggressiva e violenta com que em successivos artigos do 2.° vol. da revista (pag.s 311, 312, 340 e 350) flagellou o novel romancista», Camillo viu «conveniência» em «remetter os exemplares das suas  Inspirações  por intermédio de José Barbosa». [Barbosa, 1919, nota 2: 103-4. Os textos desta polémica e sua contextualização encontram-se em Cabral, 1981 (II): 101-112]

A última carta que, em 1851, datável de 13/XI, Camilo escreveu ao seu dileto amigo vianês é a seguinte (omite-se saudação inicial):

«[…] // Parabens pela tua feliz chegada aos braços de tua fam[íli]a. Deves trazer o coração a transbordar d’inspiraçoens, e não prives o publico do m[ui]to que pódes communicar-lhe de tuas impressoens. Felicito-te pelo honroso encargo, que tens.  É pena q[ue] estejas ligado a estes inimigos de Portugal, mas pódes, sem incorrer nos defeitos britanicos, utilisar m[ui]to á tua patria, e desempenhar, como espero, as missões q[ue] te couberem.
Estudo Theologia – e no S. Lazaro tenciono tomar subdiácono. Aqui tens a m[inh]a vida em duas linhas. Fujo de recordar o passado, e pesso a D[eu]s coragem para me considerar um homem diverso, mas sempre obrig[adíssi]mo am[ig]o // C. C. Br.co» [Barbosa, 1919: 104. Também em Cabral, 1984 (I): 55]

José Barbosa e Silva – informa o sobrinho Luís Xavier – regressara «da visita que fez á exposição de Londres.» [Barbosa, 1919, nota3: 104] Camilo, sabendo do regresso do amigo, possivelmente através da imprensa, incentiva-o a que comunique ao público as impressões que traz de Inglaterra, de onde teria chegado com o coração a transbordar de inspirações. Se o fez, é capaz de ter acontecido, mas isso ficará para a correspondência que Camilo enviou ao seu amigo de Viana, em 1852.
Quanto ao desgosto da ligação de Barbosa e Silva aos ingleses, ainda não encontrei motivo para Camilo os considerar «inimigos de Portugal». Quanto à nova tentativa de ser padre, deu naquilo que só podia dar – vocação falhada – porque outras tentações mais poderosas atraíam este homem inquieto, de corpo e espírito.


Leituras:
BRANCO, Camilo Castelo, 1851: Anathema. Lisboa:
----------, 1851: Inspirações. Porto: Typographia de J. J. Gonçalves Basto.
----------, 1854: Duas Epochas na/da Vida. Porto: Typographia de A. S. dos Santos.
BARBOSA, Luís Xavier, 1919: Cem Cartas de Camilo. Lisboa: Portugal-Brasil Limitada, Sociedade Editora.
CABRAL, Alexandre, 1981: Polémicas de Camilo Castelo Branco (vol. II). Lisboa: Horizonte.
----------, 1984: Correspondência de Camilo Castelo Branco com os Irmãos Barbosa e Silva (vol. I). Lisboa: Horizonte.
----------, 1984a: Correspondência de Camilo Castelo Branco com os Irmãos Barbosa e Silva e com Sebastião de Sousa (vol. II). Lisboa: Horizonte.
----------, 1989: Dicionário de Camilo Castelo Branco. Lisboa: Caminho (2.ª ed.: 2003).

sábado, 11 de janeiro de 2014

deVez-enCanto

001 - a passos forçados



Publicado, depois, em estes cantares fez & som escarnhos d'ora. Ed. A. / Viana do Castelo, 2105/2016, «xxi», p. 38.

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

haVer o que dá

14b:







Kiwi. 

Em 14a, mostrei as flores. Umas são M, outras F. Brotam também em árvores M ou F. As F, sem as M, não se transformam em frutos. É a lei natural da vida. Mas basta uma só M para se dar a fecundação polinizada de meia dúzia de F. Ou até mais, desde que a distância entre elas não seja muita.
Está na altura de colher os frutos. Antes que venha uma geada ou neve e os queime, porque caída a folha, deixam de estar protegidos. Dá-se bem no Mato e dá pouco trabalho o seu cultivo: boa poda na altura própria, rega abundante no verão, corte de ramos-ladrão ou demasiado longos e... depois é só esperar pelo inverno para os colher e saborear. Colhidos com cuidado, aguentam-se muito tempo em bom estado.
É um fruto rico, dizem os entendidos, em várias vitaminas, bem como em fibras, potássio, sódio e outras substâncias. 
Experimentem! Façam pela vida! Verão que lhes sabe bem!

sábado, 4 de janeiro de 2014

haVer o que dá

14a:









NB - Continuará em 14b, para que se veja, de facto, no que deu esta metamorfose da flor.



sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Camilo & Viana 007

Camilo e os irmãos Barbosa e Silva [06]


Camilo, na longa carta que escreveu a José Barbosa e Silva, em finais de agosto de 1854 (ver Camilo & Viana 005), indica, a dado passo, referindo-se à coletânea de poemas Solidão / Um Livro, que «o último capítulo [poema], escrito para ti, te dirá como eu quero que tu, e poucos mais avaliem o que aí deixo, como adeus à poesia, e ao que é da poesia.» [Cabral, 1984 (I): 70]
O escritor, como se sabe, não abandonou nunca a poesia. Continuou a escrever e a publicar versos. Até ao fim da vida. Pode-se dizer, em verdade, que Camilo começou e terminou a sua carreira literária como poeta. Em 1845, tinha 20 anos (mas deve ter começado a poetar alguns anos antes), publicou Os Pundonores Desagravados, com o subtítulo de Poemeto em duas partes oferecido aos académicos portuenses, depois incluído em O Juízo Final e o Sonho do Inferno (1845) e, por fim, em Delitos da Mocidade [Branco, 1889: 1]. No ano em que, desesperado, pôs termo à vida (1890), publicou Nas Trevas, coletânea com o subtítulo de sonetos sentimentais e humorísticos, considerando-os, na dedicatória ao Conde de Matosinhos, as «derradeiras pulsações da sua vida litteraria». [Branco, 1890: 5] E publicou, de permeio, vários outros poemas e livros de versos.
Não é, porém, o Camilo autor de poesias que está na origem destes posts. Retomo, por isso, as relações do escritor com Viana e, em particular, com os irmãos Barbosa e Silva, para recordar que, além de oferecer (dedicar) Um Livro a José Barbosa e Silva, refere haver também no volume um capítulo escrito para o seu grande amigo. É o poema que recebe, segundo as três edições não póstumas, respetivamente, os números XVIII (1854: 154-158), XX (18582: 166-170) e XXI (18663: 157-161).

O referido poema será transcrito a seguir. Consultei, entretanto, a segunda edição de Um Livro (18582). O escritor declara, logo no início, na página anterior à página de rosto, pertencer esta edição ao sr. Francisco Gomes da Fonseca, que foi um dos seus primeiros editores, além de amigo. Camilo foi introduzindo, de edição para edição de Um Livro, além de novos poemas, novas emendas, acréscimos e diminuições. E não apenas em versos. Também no prefácio da segunda, ao reescrevê-lo para a terceira edição (18663). Por exemplo, como curiosidade: depois de referir que esta coisa sem nome [Um Livro] era de novo procurada pelos leitores, corrige o texto como a seguir apresento, em paralelo. (Sublinho alterações, incluindo, neste caso, as gráficas.)

Pref. da 2.ª ed. (18582: 8)
Pref. da 2.ª ed., na 3.ª ed. (18663: 5-6)
Reimprime-se hoje com emendas, accrescentamentos e diminuiçoens também, que havia ahi muitas piegui-ces que mondar. / Se a crytica vier agora, será bem-vinda e não perderá por serodia. O defeito capital, se está na teima, facil remedio tem. Não farei terceira edição. Isto pode o publico evital-o, negando-lhe a bem-querença com que recebeu essas coisas vagas, e sem concerto, que tem um pouco de coração, e mais nada. / Porto 28 de Setembro de 1857.
Reimprime-se hoje com emendas, acrescimos e diminuições também, que havia ahi muitas pieguices e pequices que mondar. / Se a critica vier agora, será bem vinda e não perderá por serodia. O defeito capital, se está na teima, facil remedio tem. A terceira edição poderá o publico evital-a, negando-lhe a bem-querença com que recebeu essas bagatelas, que tem um pouco de coração e mais nada. / Porto 28 de Setembro de 1857.

Também no poema «escrito» para o amigo Barbosa e Silva, Camilo introduziu emendas, pieguices e/ou pequices, tendo feito também monda semelhante em relação a outros poemas e às notas com que termina o volume.
[Sublinho, na transcrição, apenas as alterações introduzidas a nível do seu léxico pessoal, nas três edições. Além destas, o poeta fez também emendas gráficas e de pontuação. Cf. Branco, 1854: 154-158; 18582: 166-170; 18663: 157-161]

Amisade, dom precioso,
Perfume sancto na ara
Do tranquillo, e eterno goso;

   Alva perola, tão rara
Das paixões no mar bravoso; / das paixões no oceano iroso; (3.ª ed.)

   Amisade, filha cara / Amizade, luz querida (3.ª ed.)
De corações, que poderam,
Entre as ruinas tristonhas
Das illusões, que perderam,
Salvar-vos, crenças risonhas
Na lealdade do amigo;

   Halito suave e sereno
De peito de homem, sem seiva,
Porque o sceptico veneno,
Infiltrado, ulcéra e eiva
O melhor do coração;

   Querida, vem bafejar-me, / Formosa, vem bafejar-me, (3.ª ed.)
Com singella inspiração, / com singela espiração, (3.ª ed.)
A corda asperrima, rude
Do luctuoso alaude,
Sempre gemente e funereo!

   Dá que eu possa a ti altear-me
Deste baixo, e positivo
Viver de maguas rasteiras,
Em que morre o estro vivo,
Sem ideal, sem mysterio
Como o há, n’aquella dôr, / como elle é n’aquella dôr (3.ª ed.)
Grande, calida do amor, / grande, e ardente do amor. (3.ª ed.)
Suavissimo martyrio, / Ai! suavissimo martyrio, (3.ª ed.)
Que, em quanto a vida golpea,
Deixa expandir-se em delirio
A febre d’alma, que ancea.

   Não! meu Deus! é agro o calix…
Affastai-o! Antes assim…
Gelo na alma… a frialdade, / Antes n’alma esta frialdade, (2.ª ed.)
Esta languida atonia,
Triste, e escura soledade,
Profundo somno, sem fim,
Continua noute sem dia!
Mas, Senhor, na orfandade / Mas, Senhor, nesta pobresa (2.ª ed.)
Das emoções, que dão vida / De comoções que dão vida (2.ª ed.)
Fogosa, enthusiasta, ardida, / Fogosa, cálida, ardida (3.ª ed.)
Dai-me o placido remanso
D’aquella branda amizade,
D’aquelle afago d’irmão,
Em que me acolho e descanso
Das luctas do coração!
*
   Amigo! Vê que estas paginas
São minha alma! Vieram
Aos labios, que t’as disseram,
Do coração, que t’as disse.
Eu não me escondo a teus olhos!
Sabes que sofro… sabias
Que profundas agonias,
Ha muito, escondo… e de mim!
Predisseste, muitas vezes,
Os desastrados reveses
A que vieste, e a que vim!
Quasi marcaste o momento,
Em que tanto sentimento
Expirar devêra, em fim

E expirou!
                      Que salvei eu
Desse opulento thesouro
D’affeições? Só tenho um louro,
O meu mais caro tropheu…
É teu nome, amigo, aqui,
Como a primeira expressão
Que saudei, quando a escrevi
No livro da solidão…
Deixa que falle a vaidade,
Outra, já não tenho, amigo…
Deixa expandir-se a amizade!
Este orgulho é justo e nobre,
Engrandece-se comtigo.
Dou-te um nome, que não posso
Dar no mundo a mais alguém…
Foi condão, só meu, só nosso
Esta alliança d’extremos
Que te devo… aos labios vem,
Vem da alma a confissão…
Fiz-t’a já sem pejo, amigo,
Quando em ti, buscando um abrigo,
Encontrei braços de irmão…
…………………………………
*
   Olha, eu vim buscar ao ermo
Paz, e um novo coração…
Ai! não póde já fazer-m’o
Tal milagre a solidão.
Sentir profunda a saudade
Do amor, que, em outra idade,
Me deu vida, alento, e ar…
Pude! Amei, senti, transpuz
A minha alma abatida
Aos jardins d’aquella vida
Cheia de flores e de luz…
Tens assim horas acerbas, / Tens assim horas, no dia, (2.ª ed.)
Attribuladas, na cruz
Da saudade, e da agonia?
*
   Illusão! Ainda és bella,
Mesmo pallida e sombria!...
Na longa noute da alma
Brilhas, instantes, mas brilhas!...
Rica das pompas do dia,
Um relampago desferes
De deslumbrante poesia;
Mas depressa a luz se apaga,
Que o artificio accendeu…
A arte morre, esvahida,
Onde o coração morreu.

Escrevi, em Camilo & Viana 005, que a mudança do título de Solidão, inicialmente previsto, para Um Livro talvez se ficasse a dever à necessidade de ocultar indícios das relações adulterinas e ainda clandestinas que Camilo manteria, já em 1854, com Ana Plácido. Entretanto, comecei a ler, com a devida atenção, um livro que põe em causa, praticamente, tudo o que até agora foi dito pelos principais biógrafos camilianistas, desde José Cardoso Vieira de Castro (1838-1872) – e mesmo pelos próprios amantes – até Alexandre Cabral (1917-1996), acerca das relações amorosas do escritor com Ana Plácido. A começar, desde logo, pela data, local e circunstâncias do seu primeiro encontro ou conhecimento, ao início de troca de correspondência, de namoro e amor clandestino, passando pela «questão de paternidade» de Manuel Plácido, «filho primogénito» de Ana Augusta, casada e ainda a conviver com Manuel Pinheiro Alves. Refiro-me ao volume Camilo e Ana Plácido – Episódios ignorados da célebre paixão romântica, da autoria de Manuel Tavares Teles, editado em 2008, pela entretanto extinta editora Caixotim.
Continuo a ler Camilo e Ana Plácido, obra recheada de importantes informações, reveladora de minuciosas e pacientes investigações e comparações. Espero dedicar-lhe, oportunamente, um ou mais posts. Até porque, além do mais, Tavares Teles utiliza, para defender as suas teses, muitas cartas que Camilo escreveu a José Barbosa e Silva, dando-lhes interpretações (e, por vezes, datações) diferentes das que lhes havia dado Alexandre Cabral, nos dois volumes da Correspondência de Camilo Castelo Branco com os irmãos Barbosa e Silva (1984).
Até lá, talvez seja interessante transcrever o início (apenas o início, do longo poema, com mais de duas centenas e meia de versos), n.º I nas três edições, onde se encontra, muito possivelmente, a razão por que Camilo pensava chamar à coletânea Solidão, antes de optar por Um Livro.
[Como fiz em relação ao poema acima transcrito, também aqui indico, sublinhando, as emendas que o autor introduziu nas três edições. Na 1.ª e 2.ª, os versos transcritos constituem duas estrofes. Na 3.ª, três. A separação que se faz, na transcrição de alguns versos da 1.ª (e 2.ª), destina-se a visualar melhor as alterações introduzidas pelo poeta. Cf. 1854: 5-6; 18582: 9-10; 18663: 1-2.]

Solidão! não foi de balde    /  Soledade, triste amiga, (3.ª ed.)
Que te vim pedir afagos;        /  vim buscar nos teus afagos (3.ª ed.)
           /  suavidade á minha cruz; (3.ª ed.)
Das-me crenças, sonhos vagos  /  dá-me aquelles sonhos vagos, (3.ª ed.)
           /  aquellas crenças ditosas (3.ª ed.)
Em que a alma folga e espera
Paz, e amor, esp’rança, e luz.
Paz! se o mundo bem soubera
A que bens ella conduz…
Amor!... aspiração, gloria,
Que innobrece o coração!      /  que dilata o coração! (3.ª ed.)
Esp’rança!... luz tranzitoria,
Que nos mostra, a furto, o ceo!...

Luz ideal de tantas côres,
Projectada em tantas flores,    / Reflectida em tantas flores, (2.ª e 3.ª ed.)
Grinaldas d’anjos, e amores,
Mil poemas, n’um instante,
Abrangendo o infindo espaço
D’aquellas maguas de Tasso,
Das fantasias do Dante!...
*
   Solidão! grato remanso,
Onde eu vim, do mar irado,
Como naufrago, cansado,
Recostar-me em teu abrigo,
Ai! Não digas teu segredo
Aos que sofrem, se, no mundo,  / aos que sofrem. N’este mundo,
/ n’este inhospito degredo,
Há quem sofra! Tenho medo,  / quem não soffre? Tenho medo,
     / que te amem quanto eu amo,
Que me roubem teu carinho.
Sê só minha; e eu, sosinho,    / Sê tu minha; que eu, sósinho,
Como a ave, que, além canta,
Dou-te um altar, no coração;
Cantarei na harpa sancta,
Consagrada ao ceo, os hymnos, / ao Senhor votada, o hymno,
Que me inspiras, solidão!       / que me influes, oh solidão! (3.ª ed.)

*                                            *
[…]

Na terceira edição, Camilo substitui a invocação «Solidão» por «Soledade». Porquê? Embora os termos possam ser considerados quase-sinónimos, «Solidão» é, no poema, a personificação de um estado de espírito, do sentimento de alguém que se sente só, solitário e, no caso, assim se compraz. «Soledade» é a personificação, real ou fictícia, desse estado / sentimento, um nome próprio, portanto. «Soledade» é, então, a «triste amiga», em quem o poeta procura os afagos que lhe suavizassem a cruz do viver. Mas receia voltar a perdê-los, perdendo-a, se ele revelar «o segredo» que os une. Nesse caso, o sofrimento do poeta solitário será maior, porque, então, terá medo «que te amem quanto eu amo / que me roubem teu carinho!» Implora, por isso: «Sê tu (só) minha; que eu sósinho, / como a ave, que, além canta, / dou-te um altar, no coração».
E se a ainda imprecisa «Solidão», em 1854 e 18582, e depois a mais concreta «Soledade», em 18663, fossem invocações fictícias / poéticas de uma e mesma pessoa – Ana Plácido?
Ana Plácido, sabe-se, foi também escritora, além de tradutora. Publicou, além artigos em vários jornais e revistas, dois livros: Luz Coada por Ferros (1863) e Herança de Lágrimas (1871), este último com o pseudónimo Lopo de Sousa. E deixou vários inéditos, alguns dos quais foram publicados, celebrava-se o 1.º centenário do nascimento do escritor, por Alberto Veloso d’Araújo, no livro Camilo em San Miguel de Seide. Ora, num destes inéditos (uma espécie de carta literária, dirigida a uma «D. Amélia Ferreira», logo depois simplesmente tratada por «minha querida D. Amélia»), Ana Plácido, depois de recordar uma paixão que, há cerca de 40 anos, havia tido na sua juventude, termina assinando com o pseudónimo Soledade. [1925: 165-169]
E agora?...
Seria Camilo, naquele longínquo tempo, o objeto principal (ou o agente) dessa paixão? Se não, que outro seria? E, neste caso, quando e como é que Camilo soube quem foi ele (ou ainda era)? E quando é que o escritor ficou a saber que Ana usava também o pseudónimo Soledade?
Gostava de poder responder a todas estas questões e a outras tantas que, como as cerejas, com elas se prendem. As leituras, todavia, continuam…

Leituras:
BRANCO, Camilo Castelo, 1854: Um Livro. Porto: Typ[ographia] de J. A. Freitas Junior.
----------, 18582: Um Livro. Porto: Typographia de F. G. da Fonseca.
----------, 18663: Um Livro. Porto: Casa Viuva Moré, Editora.
----------, 1889: Delictos da Mocidade – Primeiros attentados litterarios de Camillo Castello-Branco. Porto: Livraria Civilisação.
----------, 1890: Nas Trevas – Sonetos sentimentaes e humorísticos. Lisboa: Livraria Editora, Tavares Cardoso & Irmão.
CABRAL, Alexandre, 1984: Correspondência de Camilo Castelo Branco com os Irmãos Barbosa e Silva (vol. I). Lisboa: Horizonte.
----------, 1984a: Correspondência de Camilo Castelo Branco com os Irmãos Barbosa e Silva e com Sebastião de Sousa (vol. II). Lisboa: Horizonte.
----------, 1989: Dicionário de Camilo Castelo Branco. Lisboa: Caminho (2.ª ed.: 2003).
TELES, Manuel Tavares, 2008: Camilo e Ana Plácido – Episódios ignorados da célebre paixão romântica. S/L: Edições Caixotim.
VELOSO d’ARAÚJO, [Alberto], 1925: Camilo em San Miguel de Seide. Braga: Livraria Cruz.

Nota
Para tornar ainda mais "pesado" este post, não coloquei imagens.