segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

VianaVocale canta cantata de Lopes-Graça


      O coro VianaVocale da Academia de Música de Viana do Castelo, surpreendeu, ao meio da tarde de ontem, os domingueiros que pass(e)avam pelo centro comercial «Estação de Viana».


     Dirigido pelo maestro Vítor Lima, o coro interpretou várias peças musicais alusivas à Natividade, com destaque para a Primeira Cantata de Natal, do compositor Fernando Lopes-Graça, cuja gravação, em CD, foi apresentada na semana passada.


O disco é acompanhado por um folheto. Destaco o texto de José Luís Borges Coelho, sobre o compositor Lopes-Graça e a referida Cantata, que, ao terminar, refere:

«Música enxuta. Modernidade e simplicidade. Conjugado cada pormenor para devolver à origem, generosamente acrescida do seu juro em valor acrescentado, a portugalidade da expressão popular.»

E sobre VianaVocale:

«Último elo do ciclo: um coro juvenil oriundo duma escola de música do Alto Minho, vozes frescas, afinação cuidada, envolvimento notório com a história que cantam de modo a amarrar quem “cai” em começar a escutá-la.»


O folheto traz, de seguida, sínteses das atividades do coro, do curriculum do maestro e da história da Academia de Música de Viana do Castelo. Termina com a transcrição da letra das 19 canções que integram a cantata.

Agora, é só apreciar. Uma belíssima prenda de Natal. No presente e no futuro. Sempre.
Obrigado, Carla. Obrigado, Vítor. 

Boas Festas a todos!

domingo, 22 de dezembro de 2013

anoiteSendo 02






Nota
Fotografias captadas ao fim da tarde (quase) de 22-12-2013, no Campo d'Agonia, Viana do Castelo. Não foi possível captar o longo caos do chilreio. Só ouvIsto!

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

haVer o mar 008

008: ???






Nota
Fotografias captadas na manhã de 20-12-2013, ao longo da costa da Areosa (Praia Norte), Viana do Castelo.

sábado, 14 de dezembro de 2013

haVer o mar 007

... e arde também o mar, a noroeste!






Camilo & Viana 006

Camilo e os irmãos Barbosa e Silva [05]


«MEU CARO BARBOSA

Escrevi um livro, que os amigos, não aduladores, me disseram que devia definir a minha reputação. Auxilia-me tu, com os teus am[ig]os a publical-o, e permitte-me que elle te seja offerecido. E’ um poema, intitulado – Solidão. – Escrevi-o em dous mezes de divorcio completo com o mundo. Amo-o. E’ a m[inh]a alma: devia offerecer-t’o como a unica alfaia litteraria, que eu verdadeiram[en]te aprecio. Remetto-te quatro prospectos; não queria, e não sei m[es]mo se não devia remetter-t’os: mas é forçoso que o império das circumstancias algeme a vontade. Recommenda-me aos teus, e faz-me justiça inteira.

       (Porto, 29 de Julho de 1854.)                                            Teu  Camillo»
[Barbosa, 1919: 109. Desenvolvi as formas abreviadas. Também em Cabral, 1984 (I): 68]


Esta foi, a não se terem perdido ou destruído outras, a primeira carta que Camilo escreveu, no ano de 1854, a José Barbosa e Silva. O seu conteúdo, quanto ao pedido de auxílio na edição do livro anunciado, foi já abordado no post Camilo & Viana 005.
O poema (conjunto de poemas) acabou por ser editado, não com o título de Solidão, mas estranhamente intitulado Um Livro. Mais tarde, no prefácio da 3.ª edição (18663), Camilo escreve que preferiria chamar-lhe O Livro das Saudades.

«Livro de saudades é este para mim; saudades do tempo, saudades das maguas, saudades das esperanças que eu via por olhos marejados de lagrimas! […] Estes versos valeram pouco entre as formosas poesias d’aquelle tempo. Hoje, quando ressoam torrentes de primorosos poemas, nada valem. Para os amigos dos meus livros são mais um livro: para mim são uma flor fenecida de saudade, fenecida e quasi desfeita porque a lancei na urna das lagrimas.» [Branco, 18663: 7 e 8]

Um Livro é uma coletânea de poemas. Teve sete edições, a última, segundo o registo da Biblioteca Nacional, é de 1968. Na 2.ª (1858) e na 3.ª (1866), o escritor introduziu alterações em poemas, tendo aumentado também  o seu número. Em 54, o volume era composto por XVIII poemas (chama-lhes «capítulos», em carta a Barbosa e Silva), em 58, XXI, e em 66, XXV. Para a 2.ª e 3.ª edições, Camilo escreveu pequenos prefácios. No da 2.ª, considerando, embora, que estes seus «versos» são «bagatelas que tem um pouco de coração e nada mais», regista: 

«A primeira edição foi depressa consummida, e muito ha que esta coisa sem nome é procurada. Reimprime-se hoje com emendas, acrescimos e diminuições também, que havia ahi muitas pieguices e pequices que mondar. » [Branco, 1866: 5-6. Não me foi possível, ainda, consultar a 2.ª ed.]


Três observações devem ser ainda referidas.
Primeira: Camilo inclui, no final do volume, uma série de «notas» [1854: 159-161 e 202-204; 18663: 172-183], onde comenta e/ou esclarece o tema de alguns poemas. A propósito de um (XVI, 1854: 144-147; XIX, 18663: 148-150), recorda e transcreve a narrativa «Vinte Dias de Agonia» [1854: 162-201 e 18663: 183-235], a que Alexandre Cabral chama «romancinho», informando, ainda, ter sido «estampado em 1853 no [jornal] Portuense (a partir do n.º 26, de 1 de Dezembro) com o título de Agonia de Vinte Dias.» [Cabral, 1989: 359; 20032: 437]
 Segunda: a 3.ª edição é precedida também de um prefácio de Tomás Ribeiro, onde este autor, na sua longa «carta litteraria», como lhe chama, observa, a dado passo:

«Um livro é... um poema truncado... um ramilhete de poemas indecisos, vagos, mysteriosos, esboçados a traços incompletos... ás vezes não principiados... ás vezes não acabados. Ais que se não puderam abafar; lamentos que se completam n’um riso de ironia; preces que terminam em blasfémia; sarcasmo que se apaga em lagrimas.» [18663: XXIX]

A terceira observação diz respeito ao dedicatário. Um Livro, em 18663, continua oferecido ao delicado amigo vianês, mas como «testemunho de antiga amisade e saudade eterna». José Barbosa e Silva tinha morrido em 16 de setembro de 1865, ano em que Camilo preparava a 3.ª edição do livro.


Camilo deve ter sentido, profundamente, a morte do amigo de Viana. Eis a carta que, cerca de um mês depois, escreveu a Luís Barbosa e Silva, irmão do falecido e também ele amigo do escritor:

«MEU CARO BARBOSA

Não fui quando foram todas as consolaçoens. Para a tua angustia e para a dos teus irmãos todas ellas deviam ser frivolas. E’ necessário deixar correr as lagrimas, e quando o coração apenas tem sangue que dar a uma saudade, então é chegada a hora de dizer aos que soffrem a perda de um homem como José Barbosa: “Não choreis, que se abriu o ceo áquella alma immaculada”. Elle era tão vosso irmão pelo sangue como meu pela bond[a]de do coração. Quando aqui passou pela derradeira vez, escreveu ao Ramalho Ortigão, e dizia-lhe: “dê um abraço no Camillo” [.] Lembrou-se do mais infeliz homem q[ue] elle tinha conhecido. Guardo as minhas dores para um livro [*], com que heide ajuntar mais uma pagina ás m[ui]tas q[ue] o choram.
Coragem, meu amigo. Ámanhan nos encontraremos todos álem desta lama em q[ue] estão as cinzas das pessoas que amamos. Diz isto aos teus queridos irmãos; dil-o tamb[e]m ao Seb[asti]am de Sousa, cujas lagrimas reviam n’aquellas sentidíssimas linhas q[eu] escreveu. Quantos amigos a chorarem um homem de bem ! A virtude não é uma mentira. As saudades do virtuoso são um testemunho da feliz immortalid[a]de da alma d’elle.

Teu velho amigo
Lessa da Palm[ei]ra
11 de 8.bro [outubro] de 1865.                                        Camillo Castello Br[an]co »
[Barbosa, 1919: 83-84. Também em Cabral, 1984 (II): 134]

[*] «A promessa de relembrar José Barbosa num livro cumpriu-a de maneira insatisfatória em 1870, dando-o como apresentador do Carlos Pereira, personagem d’A Mulher Fatal». [Cabral, 1984 (II): 135. Ver, neste blogue, Camilo & Viana 004]

Além da dedicatória, Camilo, na longa carta de 29/08/1854 (ver Camilo & Viana 005), escreve, a dado passo, que «o último capítulo [poema], escrito para ti, te dirá como eu quero que tu, e poucos mais avaliem o que aí deixo, como adeus à poesia, e ao que é da poesia.» [Cabral, 1984 (I): 70] É o poema que recebe na 1.ª e na 3.ª ed., respetivamente, o n.º XVIII (pp. 154-158) e XXI (pp. 157-161).
Para não alongar, ainda mais este post, apresentarei, no próximo, o referido poema. Referir-me-ei, por outro lado, ao poema que, em princípio, daria o título de Solidão ao volume. A mudança para Um Livro talvez tenha a ver com as relações adulterinas e ainda clandestinas que Camilo mantinha com Ana Plácido. Talvez…

Leituras:
BRANCO, Camilo Castelo, 1854: Um Livro. Porto: Typ[ographia] de J. A. Freitas Junior.
----------, 18663: Um Livro. Porto: Casa Viuva Moré, Editora.
BARBOSA, Luís Xavier, 1919: Cem Cartas de Camilo. Lisboa: Portugal-Brasil Limitada, Sociedade Editora.
CABRAL, Alexandre, 1984: Correspondência de Camilo Castelo Branco com os Irmãos Barbosa e Silva (vol. I). Lisboa: Horizonte.
----------, 1984a: Correspondência de Camilo Castelo Branco com os Irmãos Barbosa e Silva e com Sebastião de Sousa (vol. II). Lisboa: Horizonte.
----------, 1989: Dicionário de Camilo Castelo Branco. Lisboa: Caminho (2.ª ed.: 2003).
RIBEIRO, Thomaz, 1866: «Meu Presado Camillo» [Carta-prefácio]. Em Branco, 18663: XI-XXXI.

Nota final:
Em citações e referências, foi mantida a grafia do original consultado.


segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

haVer o que dá

13:











Araçá

Floresce (começa a florir) em junho/julho. Frutifica e amadurece (vai frutificando e amadurecendo) a partir de outubro e, em dezembro, ainda dá. É originário de climas tropicais, mas no Mato é o que se vê. Gostou do sítio. Há quem faça compota com os frutos agridoces. Eu prefiro-os ao natural. E, se possível, diretamente da árvore. Sendo «bicho-do-mato», sou frutófilo, por natureza.

domingo, 1 de dezembro de 2013

Camilo & Viana 005

Camilo e os irmãos Barbosa e Silva [04]

(A penúria do escritor, em cartas de cinco anos)


Com a visita aos amigos vianeses, na Semana Santa de 1853, as relações de amizade entre Camilo e os irmãos Barbosa e Silva terão ficado definitivamente consolidadas. O escritor deixou, então, no álbum pessoal do irmão mais novo desta família, uma texto em prosa e um poema, onde manifesta a «terna amizade» com que fora recebido e acarinhado. Tais relações foram-se desenvolvendo, em anos anteriores, ora a nível literário, a favor de José Barbosa e Silva, ora a nível financeiro, a favor de Camilo, ora a níveis de cumplicidades afetivas, mais ou menos clandestinas.

Neste post, abordarei a permanente situação de penúria económica em que Camilo viveria, refletida nas cartas que escreveu a José Barbosa e Silva, entre 1850 e 1854. Por outro lado, ver-se-á como o amigo vianês foi atendendo aos frequentes e, por vezes, aflitos pedidos de dinheiro do amigo escritor. Nos últimos dois destes cinco anos, Camilo parece querer abandonar a profissão de escritor e arranjar uma ocupação (emprego) mais estável (Comandante de Guardas da Alfândega do Porto, por exemplo). A sua produção literária diminuiu significativamente, embora tivesse continuado a escrever para jornais, pago à peça. Sentiria o escritor que as suas capacidades de imaginação e de produção literária tinham chegado ao fim?... A tal acontecer, porém, Camilo gostaria de ficar na história, ao menos, como poeta:

«Ao sair do mundo da poesia para a realidade da economia política, dolorosa metamorfose por que estou passando, quis deixar um pequeno padrão, na minha estrada, que diga [:] “Aqui passou um poeta”[.] » [Cabral, 1984 (I): 69]

O padrão a que se refere, em carta de 06/08/54, era o livro de poemas que tinha no prelo e que sairia a público dali a mês e meio. (Falarei, oportunamente, com o desenvolvimento possível, deste livro, nos seus aspetos literários e de edição.)

Após os primeiros contactos (finais de 48 ou inícios de 49) e de uma primeira carta ainda marcada por formalidades (10/07/1849), Camilo terá enviado a José Barbosa e Silva, nos cinco anos seguintes, 31 cartas. Digo terá, uma vez que outras terão sido destruídas, embora se não saiba se situáveis neste intervalo de tempo. Como «vandalescamente» destruídas foram, informa Alexandre Cabral, todas as cartas (e não terão sido poucas, digo eu) que o amigo vianês enviou ao escritor: «Em Ceide não se encontra uma única carta de José Barbosa e Silva.» [Cabral, 1984 (I): 41] Essas cartas contribuiriam, certamente, para o esclarecimento de alguns dados da vida do escritor, ainda pouco claros, e sobre os quais os biógrafos camilianistas continuam a propor interpretações, além daqueles que ficarão eternamente por conhecer.

Cartas de Camilo para José Barbosa e Silva (1850-1854)
1850
1851
1852
1853
1854
Total
010
004
002
007
008
31

O principal objeto e objetivo das cartas de 1850 é de natureza financeira. Seis delas são pedidos de dinheiro, por vezes desesperadamente, aos quais, porém, o destinatário nem sempre (cor)responde. Numa, pede a «quantia que poderes dispensar» [id.: 45]; noutra, «a quantia de 12$ réis» [id.: 46]; noutra, «50 mil réis» [id.: 47]; noutra, diz-lhe estar «resolvido a dar por 3$ réis o meu [seu] Byron e Volney», pois encontra-se «na mais urgente penúria» [id.:48]; noutra, pede «alguns pintos disponíveis […] para não estar sem dinheiro» [id.: 49]. E, por último, na última carta deste ano, dirige ao amigo de Viana que, como ele, vivia em Lisboa, o seguinte apelo, retoricamente mais dramatizado que dramático: 

«Barbosa –

Dá-me pelos meus livros 28 800 réis – ou atiro com esta vida ao inferno. Estou como não imaginas. No próximo vapor vou ao Porto. Muito preciso falar contigo antes da minha partida por que hei-de ali à tua ordem entregar o que te devo, e não torno a Lisboa.» [Id.: 50]

Os laços da amizade que haveriam de unir, efetivamente, Camilo e Barbosa e Silva, como irmãos, seriam ainda pouco fortes. Em cada uma das cartas recebidas, José registava se tinha ou não respondido, indicando também local e data. Em quatro destas seis cartas, encontra-se a anotação «”S. R.”», isto é, «sem resposta», segundo decodifica Alexandre Cabral [Id.: 45].

(Camilo - Desenho de Júlio Pomar para 1.ª edição d’O Romance de Camilo, de Aquilino Ribeiro, editado em 1956.)(Imagem encontra-se no Boletim Cultural da Fundação Calouste Gulbenkian, n.º 4 (VII Série), outubro de 1991, dedicado a Camilo: o Homem e o Artista.)

São diversos os temas que se encontram nas cartas de 1851. Porém, numa delas, datada do Porto, 20/04/51, verifica-se que a penúria financeira de Camilo continua. A dado passo, conta o escritor a «conta» (dívida) e o problema dela resultante que teve e mantém com J. I. Lopes Cabral. Não lhe tendo pago a conta, o credor, «para garantia», ficou-lhe com o «baú cheio de fatos e livros… (os meus caros livros!) e cartas de imensas e perigosas circunstâncias!» Baú esse que o tal Lopes Cabral teria ficado de lhe enviar, por estafeta, para Coimbra, mas que «repousou […] em sua casa». Pede, por isso, ao amigo vianês: «Se esse homem aí [Lisboa] está, vê, meu Barbosa, se ao menos podes haver para tua mão, uma carteira de terríveis compromissos.» [Id.: 53]
Barbosa e Silva correspondeu, certamente, ao pedido e o baú foi recuperado. Em carta de 16/01/52, Camilo escreve: «Devo-te uma dívida minha, e uma dívida alheia. Diz-me quanto desembolsaste no dinheiro, que, a meu pedido, emprestastes a Lopes Cabral.» [Id.: 56]
As cartas de Camilo para Barbosa e Silva voltam a aumentar, no ano seguinte. De apenas duas, em 52, passam a sete, em 53. A primeira já foi transcrita, em post anterior. É aquela em que o escritor relata o seu regresso ao Porto, com lúbrica pernoitada em Famalicão, logo depois da sua visita pascal aos amigos de Viana.
Continuando a revelar, nestas cartas, referências às sempre depauperadas economias de Camilo, temos, em 22/08, uma carta em que ele pede a Barbosa e Silva «cem mil réis». E promete: «Deus permitirá que em breve possa, não pagar-te os favores que te devo, mas pagar-te o sagrado dinheiro que me confiaste.» A esta carta, Barbosa e Silva respondeu, quatro dias depois, em 26, de Viana. [Id.: 64-65] E o dinheiro, segundo informa em carta de 30/08, chegou ao seu destino: «Fui entregue da quantia.» [Id.: 66]
São oito as cartas que, em 1854, Camilo escreve a José Barbosa e Silva. As dificuldades financeiras mantêm-se e talvez se tenham agravado. Em carta de 29/07, o escritor informa o amigo ter pronto um livro de poesia e que deseja, se ele o permitir, oferecer-lho, isto é, dedicar-lho. Mas, ao mesmo tempo, solicita a sua ajuda e a ajuda dos amigos do seu amigo, para o editar. [Id.: 68]
Esta coletânea de poemas, com o título invulgar de Um Livro, ficou impressa e começou a circular em finais de setembro de 54. Em carta de 01/10, o escritor informa ter remetido, pelo recoveiro, «100 exemplares, 97 da tua assinatura, e 3 que vão designados no prospecto, e que espero me remetas para os Arcos, e recebas a importância.» [Id.: 73] «É mais que certo – comenta Alexandre Cabral – que José Barbosa e Silva auxiliou o financiamento da edição do volume, que saiu sem chancela de editor, indicando apenas ter sido impresso na Tipografia de J. A. de Freitas Júnior.» [Id.: 69]
Outras breves referências, algumas implicitamente formuladas, outras pressupostas, se encontram noutras cartas camilianas de 54. Há, no entanto, uma longa e interessantíssima carta que vale a pena (re)ler. Nela, a propósito da edição, ainda em curso, de Um Livro, Camilo revela as causas das suas contínua(da)s dificuldades financeiras, apesar do intenso trabalho de escrita a que, lamenta, se tinha dedicado. E a que promete continuar a dedicar-se, pois quer pagar não só as dívidas já contraídas, mas também o novo empréstimo que aproveita para pedir. Carta que é, ao mesmo tempo e por tudo o que ela contém, como observa Alexandre Cabral, «um documento notável da idiossincrasia do escritor.»[Id.: 72] Idiossincrasia que frequentemente oscilava entre os cumes da arrogância e os sopés da humilhação.

«Meu Barbosa

Estas páginas, que te remeto, são uma parte da minha, e tua obra. Prezo-a, como a nenhuma. Verás no todo que está aí o melhor do meu coração, o suave reflexo do que fui, o protesto de lágrimas contra o mal que me fizeram, contra a secura de coração em que as ilusões me deixaram. Se me olhas o meu livro pelo prisma da arte, poderás vê-lo aleijado, pouco de vida, pobre de interesse para o vulgo, mas não mo analisarás assim, Barbosa. Daqui a vinte dias tê-lo-ás inteiro nas mãos; o último capítulo, escrito para ti, te dirá como eu quero que tu, e poucos mais avaliem o que aí deixo, como adeus à poesia, e ao que é da poesia.
Como irmão principiei, deixa-me como irmão continuar. As mais linhas que vais ler são arrancadas como do coração fibra por fibra. É necessário ter lutado muito, e muitos dias, para me abrir contigo, violentado por um destes instantes em que a vida é um peso, uma vergonha, e por desgraça uma algema de insuportável cativeiro. Eu tenho vivido mal de fortuna, graças à minha tendência para o desperdício, e para a ostentação. Tenho repelido com o pé a fortuna, e vou-me, cego de entendimento, atrás duma esperança sempre vã, mentirosa, e atraiçoada. Entrando na minha consciência, acuso-me; em presença da sociedade, que me é sempre injusta e intolerante, absolvo-me. Em todo o caso, amigo, tenho sido e sou desgraçado. Altivo de génio, com orgulhos reconcentrados, quando é necessário sacrificar à vaidade o meu bem-estar de longo tempo, sacrifico-o, perco-me, e considero-me uma pela jogada daqui para ali pelo infortúnio, a que não posso ser superior. Há um ano quiseram-me fazer um escravo do poder: impunham-me condições vilãs para me darem o talher no orçamento: desprezei-o: é uma renúncia de que a minha consciência está satisfeita[*]. Desde então, o sucessivo doer do infortúnio parece que me paralisou a inteligência. Tenho compreendido cabalmente a morte de Chatterton e Mallefille [?]. Foi assim… foi numa dessas horas de desconforto sem respiração, de abatimento sem alma para crer e esperar. E, contudo, Barbosa, reencontrei-me, galvanizei com a dor o espírito, escrevi, e escrevi muito. Aí está um livro em breve: escreveu-o [a] alma. Verás de 2.ª feira em diante três livros [**] no Nacional, escreveu-os o cálculo, a indústria, a necessidade do pão, que veio do antigo escravo amassado em lágrimas para o escritor público.
Alcancei no Rio de Janeiro uma venda certa de 300 exemplares da cada obra: posso melhorar a minha sorte; posso em poucos anos ser independente com este género de escrever fora da política. Hoje não: hoje dependo, e dou graças à Providência quando encontro no mundo um homem a quem posso dizer: ”Protege-me; salva-me de lances que não conheces, diz a um amigo, que não é esta a época em que o génio morre desamparado!”
Tenho dívidas, amigo. Mortificam-me, e vexam-me, e atiram comigo abaixo duma soberania em que me tenho mantido nesta terra. Devo-te, Barbosa, mais que dinheiro, devo-te o impagável, o bálsamo de muitas feridas. E é a ti que vou hoje abrir-me até onde pode mostrar-se o coração dum homem farto de reprimir-se, descoroçoado de espreitar a fortuna noutros recursos. Neste assunto consente que eu empregue poucas palavras. Devo-te hoje, penso eu, 212$ réis. Empresta-me o que vai daqui a 480$ réis. A minha situação desde o momento em que vieres dar-me um novo ar, melhorará. Trabalharei sempre e incessantemente para em cada ano te embolsar 10 moedas. Imagina, caro Barbosa, que protegeste um irmão, que pode um dia recordar-te, sem vergonha, épocas em que o salvaste de grandes vexames. Conheço-te. Diz-me o coração que acreditaste o meu sofrimento, e que me valeste. Adeus, meu Barbosa.
Quando tiveres juntado assinaturas manda-mas, que quero imprimi-las no catálogo. Os teus capítulos por que não vieram[***]?
Teu Camilo
Porto, 29 de Agosto de 1854.» [Cabral, 1984 (I): 70-71]
[*] Refere-se à «tentativa de aliciamento feita por Rodrigo da Fonseca Magalhães […], quando acabava de desligar-se do partido realista (ou legitimista) – de 1850 a 1853 -, do qual se afastou com repúdio público.» [Id.: 72]
[**] Deve estar a referir-se ao romance Mistérios de Lisboa, em três volumes, começado a publicar, em folhetins n’O Nacional. [Cf. id.: 72]
[***] As «assinaturas dizem respeito a compradores de Um Livro». Os «teus capítulos referem-se certamente ao romance do amigo Viver para sofrer.» [Id.: 73] 

Camilo passou estes cinco anos de mão estendida ou de chapéu na mão, perante José Barbosa e Silva. De facto, como observa Alexandre Cabral, comentando carta de 1850, «é impressionante a penúria de Camilo e a insistência com que bate à porta do vianense» [id.: 49]. Mas se, em 50, «as mais das vezes permanece insensível», nesta carta de 54, o seu amigo Barbosa anotou: «“R. em Set.º 4. – Viana”.» [Id.: 72]
O grande camilianista, todavia, em «Correspondência com os Irmãos Barbosa e Silva // Introdução», afirma que se cometeria «uma grave injustiça» duvidar-se, minimamente que seja, da «lealdade e amizade de José Barbosa e Silva para com Camilo Castelo Branco.» E acrescenta: «A família Barbosa foi um esteio – sempre oportuno e de recurso seguro – nas grandes horas dos apertos cruciais, por razões – é certo! – que não raras vezes transcenderam o que a amizade exigia.» [Id.: 35]

Nota final - Cartas ou as citações de cartas acima transcritas estiveram total ou parcialmente inéditas, até à data da sua publicação, em 1984, por Alexandre Cabral. Luís Xavier Barbosa, para certamente proteger a imagem do escritor, de quem foi admirador, não publicou, nas Cem Cartas de Camillo, aquelas em que o romancista se refere às suas dívidas ou dificuldades económicas. E, nas publicadas, omitiu as partes de igual ou idêntico teor. Daí ter-me servido, neste apontamento, exclusivamente, da edição de Alexandre Cabral.

Leituras:
CABRAL, Alexandre, 1984: Correspondência de Camilo Castelo Branco com os Irmãos Barbosa e Silva (vol. I). Lisboa: Horizonte.

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

haVer o que dá

012









Notas:
1) É abóbora, mas desconheço, ainda, a espécie. Quem souber, agradeço que me informe. Podem atingir e mesmo ultrapassar os 100 cm de comprimento.
2) Secas, bem secas, e retirado o recheio (sementes e resíduos), são usadas como vaso para guardar e/ou transportar líquidos (água, vinho). Dizem que, depois de secas, introduzidas no mosto em fermentação, ficam mais resistentes.
3) Também há quem as utilize como adorno.
4) Há, ainda, quem as decore com pinturas.

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Camilo & Viana 004

Camilo e os irmãos Barbosa e Silva [03]

         
        A amizade entre Camilo Castelo Branco e os irmãos Barbosa e Silva de Viana do Castelo poder-se-á situar entre finais da década de 1840 e meados da década de 1880. Com efeito, a primeira carta (a sê-lo) do escritor, dirigida a José, irmão mais novo daquela família vianesa, é de 10 de Julho de 1849, e a última é de 23 de julho de 1885, dirigida ao Luís, único dos quatro irmãos masculinos ainda vivo (a irmã, Maria Cândida, faleceria em 1908).




      Recordemos essa primeira carta que Camilo dirigiu a José Barbosa e Silva, diretamente para o Colégio da Formiga, e comentários que a seu respeito fazem Xavier Barbosa e Alexandre Cabral.

«Ill.mo Amigo

O abraço, que se dignou transmittir-me, por via do nosso Carneiro, devo retribuir-lh’o, acompanhado destas quatro linhas fluentes e sem presumpção, se tantas são bastantes para affiançar a  V.  S.ª o  m[ui]to apreço em que tenho os seus favores.
Vai esse joven enamorado mendigar-lhe as suas distraçoens: eu creio que lhe serão de grande proveito, e, por ventura, de instrucção, que elle parece desejar. Eu espero um dia livre para cumprir uma promessa. Os banhos de mar, que a Medicina empyricam[en]te me aconselha, estorvão-me o maior numero de outras occupaçoens: – verd[ad]e é, que das mais gratas ao coração, já tenho cedido a beneplacito de uma espécie de sezão moral que me apouquenta.
Agradeço o empréstimo do livro.

10 de Julho de 1849.

Desponha do
De V. S.ª am[ig]o verdad[ei]ro
Camillo Castello Branco »
[Barbosa, 1919: 101-102. Também em Cabral, 1984 (I): 43]

          Observa, em rodapé, Xavier Barbosa, sobrinho dos irmãos Barbosa e Silva, que, face ao «tratamento cerimonioso» utilizado, «as relações entre Camilo e José Barbosa teriam começado pouco antes d’essa época, talvez nas ferias [grandes, suponho] imediatamente anteriores.» [Barbosa, 1919: 102]
Alexandre Cabral, por seu turno, depois de referir ser esta «porventura a primeira carta de Camilo para José Barbosa e Silva», cujo «autógrafo» terá, entretanto, «desaparecido», observa que o «tom da carta é presunçoso» e que «a assinatura vem por extenso, o que associado ao tratamento protocolar denota que o signatário queria ficar-se pelas normas cerimoniosas.» [Cabral, 1984 (I): 44]
De facto, as fórmulas de tratamento elevado, deferenciais de terceira pessoa, utilizadas por Camilo, desde a saudação à despedida, são de distanciamento cortês, considerando e, por isso, colocando o destinatário numa posição de superioridade. Tal, porém, pode ser resultado, por um lado, de se tratar de um registo epistolar, obviamente escrito, onde, por isso, as fórmulas de tratamento cortês eram (e são), em regra, mais formais e convencionais. Por outro lado, a carta é enviada para o Colégio da Formiga, onde José Barbosa e Silva era estudante.
Isto não invalida, por isso, que entre ambos não existisse, há já algum tempo, uma relativa amizade, fruto de algum convívio entre eles e outros seus amigos, como se depreende da troca do empréstimo de objetos (livro), de agradecimento por favores recebidos e da referência a amigos comuns. Convirá dizer que, logo na segunda carta, datável de janeiro de 1850, Camilo utiliza o tuteamento e formas de saudação e despedida corteses de proximidade e de relativa intimidade: «Meu caro José Barbosa» e «Teu do C[oração]».


          Camilo e José Barbosa e Silva conheceram-se, portanto, antes daquela data, se não em 1849, no ano anterior. Os seus primeiros encontros ter-se-ão verificado, muito provavelmente, num convívio de jovens, companheiros de boémia, no Porto, semelhante, ao que o escritor relata, logo no início, de A Mulher Fatal (1870, 1.ª ed.).
O autor-narrador recorda ter conhecido o protagonista da história, Carlos Pereira («pseudónimo», informa em rodapé), por apresentação, precisamente, de José Barbosa e Silva. Assim:

«Conheci Carlos Pereira em 1849.
Apresentara-m’o José Barbosa e Silva, no hotel francez da rua da Fabrica.
           Foi há vinte annos. Barbosa e Silva e elle eram alumnos do collegio da Formiga, nos arrabaldes do Porto. Barbosa estudava allemão. O outro, nada.
Lembram-me pormenores d’aquella noite de apresentação.
Estava também o Evaristo Basto, o principe dos folhetinistas d’aquelle tempo.
Estava José Maria Gonçalves, a satyra caustica, mas gentil e perfumada dos salões.
Estava mademoiselle Pauline, filha do dono do hotel, dama de trinta annos, espirito francez e materia não desattendivel sem os realces do espirito.
Estava, emfim, mademoiselle Marie Elesmine, mulher de quarenta e dois annos, que vigiava os trinta de Paulina, sua irmã.
O ar do meu quarto incommodava os hospedes. Eu tinha dez jarras de flores sobre uma estantinha de livros, sobre a banca de escripta, e á cabeceira do meu leito. Removi-as com amoroso respeito e escrupulo.
Era um lindo quarto o meu, lindo e rico de tantas porcelanas, e flores que vinham cada manhã d’uns hortos d’Armida onde as cultivava uma alma que as intendia, e com ellas fallava.
Vinte annos depois os olhos da minha saudade vão á rua da Fabrica, e procuram o hotel francez.
Era um palacio que ardeu ha quinze annos. No sitio d’elle está uma casa de azulejo, onde mora um tabellião, uma philarmonica, uma taverna, um carpinteiro e um basar.
O dono do hotel morreu.
Mademoiselle Marie afogou-se voluntariamente.
Mademoiselle Pauline mendiga nas ruas do Porto.
José Barbosa e Silva morreu ha trez annos.
Evaristo Basto morreu ha quatro.
José Maria Gonçalves morreu doido, ha dez.
A doce alma que colhia as flores já não vê reflorir primaveras os bolbos que ella semeou. Ha sete annos que, ao cahir da folhagem das suas acassias, por uma tarde fria de novembro, foi aquecer-se ao calor do céo, e não voltou.
Carlos Pereira morto é também.
Que admira! Foi ha vinte annos! Que longo espaço! Em vinte annos enfolha, inflora, frutea  e fenece uma geração.
Mas é pena! que todos contavam com tanta vida!
E alguns tinham pavor da velhice dos quarenta annos!» [Branco, s/d: 17-19]

Estela não foi a mulher fatal de Carlos Pereira. Essa foi outra, a sua quinta e final paixão. Cassilda Arcourt se chamava, formosíssima lisboeta afrancesada de nome, vida e comportamentos, que da capital de cá fugira, aos dezasseis anos, com o viajante francês Prosper Arcourt para a capital de lá. Por ela e para com ela viver, Carlos abandona Filomena, viúva das Beiras, com quem entretanto tinha casado e de quem tinha dois filhos. [Ao (re)ler-se o romance, cuidado com alguns anacronismos, habituais, como se sabe, no escritor.]

E mais não digo. O meu Amigo Camilo não consente que eu vá mais longe, no desfiar destes novelos de amores trágicos que ele, só ele, sabe contar. Como se sabe.

Não é só n’A Mulher Fatal, porém, que Camilo se refere explicitamente a José Barbosa e Silva. Em vários outros textos o faz, como em futuros posts mostrarei.

Antes, porém, cabe sintetizar o essencial da última carta (a não terem sido destruídas posteriores) enviada por Camilo a Luís Barbosa e Silva, a quem trata, na saudação, por «Meu Caro Luís B.» e, na despedida, se auto-refere por «teu velho amigo».
Enviada de Santo Tirso, onde Camilo se encontrava em tratamento, forçado pela doença e pelo médico, mas com poucas esperanças de restabelecimento, o escritor agradece ao amigo vianês as felicitações enviadas  pelo viscondado (visconde de Correia Botelho – «chimera que juntaram ao meu velho nome») com que fora, finalmente, agraciado, um mês antes, por decreto de 18 de Junho de 1885. [Barbosa, 1919: 96-97; Cabral, 1989: 224 e 1984 (II): 157].

Leituras:
BARBOSA, Luís Xavier, 1919: Cem Cartas de Camillo. Lisboa: Portugal-Brasil Limitada, Sociedade Editora.
BRANCO, Camillo Castello, s/d (2.ª ed.; a 1.ª é de 1870): A Mulher Fatal. Lisboa: Livraria Campos Júnior, Editor.
CABRAL, Alexandre, 1984 (I): Correspondência de Camilo Castelo Branco com os Irmãos Barbosa e Silva (vol. I). Lisboa: Horizonte.
----------, 1984 (II): Correspondência de Camilo Castelo Branco com os Irmãos Barbosa e Silva e com Sebastião de Sousa (vol. II). Lisboa: Horizonte.
----------, 1989: Dicionário de Camilo Castelo Branco. Lisboa: Caminho.

Notas finais:
1) Os retratos de José Barbosa e Silva e de Camilo são cópias disponíveis, respetivamente, AQUI e AQUI.
2) Nas transcrições e títulos de livros, foi respeitada a (orto)grafia das edições consultadas.