sexta-feira, 4 de maio de 2012

Metamorfoses


Morango imprevisto (pelo produtor).


Depois do limão, chega-me ao prato este morango. Ora façam o favor de apreciar.


Também aqui, seja visto de que lado for, a sua estranha forma mantém-se. Ou agrava-se?...

Já agora (só para quem não saiba), os morangos também são “filhos” de flores. Os morangueiros [os de cá da casa, pelo menos] começam a florir em Março.


Os humanos não são, contudo, os únicos "bichos" que gostam desta fruta, tenha ela a forma que tiver. Há, com efeito, outros, bem mais atrevidos, que também não lhes resistem – os melros.
Há que protegê-los, por isso, com rede, dessas aves de bico amarelo (turdus merula), cujo canto, trinado, é lindíssimo. É o que lhes vale. Mal começam a ganhar cor, logo os pobres morangos são papados por eles. E a gente cá fica a chupar no dedo.


Quanto a fruta e suas metamorfoses, hoje fico-me por esta. Mostrar-lhes-ei, depois, a estranha forma de uma cereja. Se os melros, entretanto, não se atirarem também a elas.

terça-feira, 1 de maio de 2012

As maias começam nas vésperas de maio


De facto, a tradição já não é o que era. As maias [ou maios] que, no meu tempo de criança, cá no Mato, enfeitavam, a bem dizer, todas as entradas das habitações (paredes, janelas, postigos, portas, portadas, portões) e propriedades rurais (eidos, campos, leiras, bouças, lameiros), cortes gado e cortelhos e capoeiras (cancelas e cancelinhas, portelos e portinholas), a par de meios de transporte e trabalho (carros de bois, jugos, carroças, cabrestos, automóveis, camiões, carrinhas, “carreiras”), já não se encontram, com a abundância, variedade e beleza artesanal de há meio século.
Hoje, ao dar a minha habitual caminhada, fui de olho nelas, as maias, claro. Encontrei apenas uma digna desse nome.



Aproxima-se, como se vê, das antigas. Essas eram construídas por mulheres e raparigas, nas vésperas do dia um de maio. Eram feitas ao despique, em segredo, por isso. E colocadas ao fim da tarde do dia 30 de abril, depois do sol-posto, como mandava a tradição, inspirada num episódio evangélico de que, mais abaixo, falarei.
As maias eram “roscas” floridas. Com palha de centeio, que não era completamente triturada pelos malhos, apenas a parte das espigas. Era o colmo. Com ele, um pouco humedecido, faziam-se cordas para atar, por exemplo, fardos de palha milha. Era também utilizado (seco, claro) para encher colchões e  como tochas (alumieiros).  Pois era com uma boa manada de colmo que se fazia-se roda, com diâmetro variável (cerca de 30 cm, geralmente). Depois, escolhiam-se as flores e os “verdes”, que eram enfiados e presos (umas e outros) na “rosca”. Só de um lado, porque o outro ficava encostado à parede, por cima ou na própria porta principal, por baixo ou por cima da janela, na padieira do portão, entradas principais da casa e, por isso, voltadas para o lado de onde os vizinhos vissem. Vaidadezinhas! Justificáveis, pois claro!
Há 50 anos, mais coisa menos coisa, também já se colocavam giestas floridas, sobretudo amarelas, que por esta altura do ano estão carregadinhas de flores. Aliás, não havia tempo nem vagares para se fazer e pôr uma “rosca” em cada entrada. Ele há tantas!

Hoje, por isso, nas entradas das casas (e não de todas), o que vi foi, quase exclusivamente, ramos de giestas amarelas, uns maiores outros menores, uns mais cuidadosamente colocados, outros simplesmente pendurados. Mas a crença e a superstição de que as maias (“roscas” e giestas) protegem as propriedades (urbanas e rústicas) e seus proprietários de toda a espécie de males e malefícios continuam relativamente vivas. Sobretudo as habitações. Não encontrei entradas de propriedades rústicas “maiadas”.

Mas encontrei maias em alguns tratores, os atuais carros de bois, puxados, porém, por potentes cavalos que se alimentam, não de palha, mas de gasóleo, cada vez mais caro, como os olhos da cara.


A tradição tem raízes na narrativa bíblica da fuga da Sagrada Família.
Quando Herodes mandou procurar Jesus, certo dia, ao fazer-se noite, Jesus e seus pais foram acolhidos numa pequena casa. Os soldados do malvado rei iam atrás do Menino, para o matar, inspecionando todas as habitações. Como, porém, depois do sol-posto, a lei não os deixava entrar nelas, marcaram, com um ramo na porta, a última que visitaram. Na manhã seguinte, ao retomarem a inspeção, todas as outras portas tinham também um ramo de flores. E…
Era esta a explicação de minha mãe. Queria lá ela saber de ancestrais ciclos festivos, ritos e rituais pagãos e da sua cristianização pela sua santa madre igreja. Isso é coisa para quem não tem mais com que gastar o tempo, filho.
Como aquele que, não obstante respeitar a tradição, prefere, em vez de pendurar ramos de giesta nas portas, cultivá-las no seu jardim. Sim senhor! Bem bonitas!


Assim sendo, até à próxima. Com mais fruta estranha. Que ela, este ano, pelos vistos, está maluquinha de todo.

domingo, 29 de abril de 2012

sábado, 28 de abril de 2012

Metamorfoses

Estranho limão.



As frutas, antes de o serem, são flores. E hoje, ao procurá-las, nas árvores do quintal, fui ver os limoeiros. Nesta altura, temos botões e flores de limão, limões verdes e amarelos, uns maiores outros mais pequenos, com suas formas habituais [de certo erotismo feminino] de todos bem conhecidas, certamente. Mas com a forma que hoje encontrei... Esta não esperava eu. Apesar da minha já longa experiência de vida. Mas vamos lá, primeiro, à "metamorfose" desta fruta - o limão.


Os limões começam como um simples e minúsculo botão. Depois, este abre-se numa pequena corola. Às vezes, no mesmo "cacho", enquanto um botão acorda, já uma ou outra corola se expõe de pétalas. Apressadas, houve sempre!


E de corola passa, depois, a fruto, que enquanto cresce [e "aparece"] vai mudando de cor. Primeiro, verde carregado. À medida que vai tamanho e peso, vai amarelecendo, isto é, vai sendo amarelo. Esta é, geralmente, a cor de que se pinta, quando bem maduro. [Olh'`ó maduro!...]

 
É na "idade madura" que, por vezes (como aconteceu, desta vez, aqui, no Mato), os limões apresentam dimensões e formas surpreendentes e estranhas. Surpreendentemente estranhas, ou estranhamente surpreendentes - à vontade do "freguês". Ou talvez não. E isto, visto seja de que lado for.




Pelos vistos, é melhor ficar-me por aqui.

[Cuidado com as formigas!... Veem-nas?... Só agora dei por elas.]

Então, até à próxima.


segunda-feira, 23 de abril de 2012

SIlvestre, a primeira

UMA BELÍSSIMA FLOR SILVESTRE NA “JAGONÇA”

Não faço, habitualmente, as minhas caminhadas diárias, nem desarmado nem desprevenido. Levo sempre uma ou duas [já verão porquê] máquinas fotográficas e uma bengala [ou pau, se quiserem] ou guarda-chuva [a seu tempo se verá também porquê].
Hoje, porém, aconteceu. Levava o guarda-chuva [a manhã continuava enfarruscada], mas apenas uma máquina fotográfica. [Nem sempre se tem mãos para as encomendas.] E não é que, quando menos esperava, vi e logo parei, olhei e mais de perto observei, com a devida [de vida, também] atenção, para encontrar uma belíssima [-íssima,-íssima, -íssima, como diria o Pessoa(s), para reforçar o superlativo] flor silvestre. Onde? Na berma do caminho [a que ora chamam «rua» - vejam só! – e – ainda por cima! - «da Jagonça»*] que fronteira [do verbo fronteirar] Mato, a oeste, com Freixo.

Pois não é que, ao querer registar o surpreendente achado poças! [podem ler a interjeição na sua forma canónica] estava sem pilhas. E – poças! [idem] – não tinha levado a outra câmara. Porém, como, para tudo, nesta vida, há remédio, arranquei a flor e trouxe-a para casa. É uma das vantagens de os caminhos públicos e suas bermas ainda não terem sido privatizados! Aqui, isto é, em casa, fiz as três fotografias, entre outras, que neste post posto [presente do indicativo, primeira pessoa, do verbo postar].
A primeira, é a flor propriamente dita, isto é, a corola, com o seu androceu e o seu gineceu. {Gosto desta aliteração sibilante e rimada em [–sew], foneticamente escrevendo, claro.}


Des-lum-bran-te!!! Pela(s) cor(es) e pela(s) forma(s). Pelo tamanho, também. O círculo exterior da corola tem, de diâmetro (de ponta a ponta das pétalas), cerca de 5 cm e o interior à volta de 1 cm. O pedúnculo  ou haste não ultrapassa os 50 cm. Depois, não tem cheiro. Nada. A grandeza da sua beleza, porém, nem a melhor fotografia do melhor fotógrafo pode revelar. Só mesmo ao pé, ao vivo, de cócoras, devagar, sem pressas, lentamente, sem lentes na mente. Ora voltem cá a vê-la, agora, com algumas das suas folhas e alguns dos seus botões. O afastamento, por vezes, ajuda a ver/observar melhor.


Pois é. E agora, como se chama esta maravilha? E/ou a erva de que ela brota? Terão o mesmo nome, certamente. Mas qual? As navegações informáticas não me permitiram descobrir esta "especiaria".


Ofereço, por isso, uma rodada [pode ser um garrafão, ou mais] de tintol verde carrascão ao(s) sabedor(es) que, botânico ou não, me informar da sua designação ou designações (também a científica, se possível).

NB – Como, certamente, já perceberam, com este post, começo a postar fotos [ponto] com traço [de menos] grafia.

(*) A fotografia da «Rua da Jagonça» foi tirada há já bastante tempo. Destina-se a estudo que, um dia, hei de fazer, sobre velhas e novas toponímias de Mato e freguesias vizinhas, suas damas de honor. Já agora, «jagonça» deve ser alcunha. Ou será «pedra preciosa» ou como tal considerada? Ou terá a ver com o termo brasileiro «jagunço»? O Emídio que explique, pois a dita «rua», outrora caminho e ora estrada alcatroada, faz parte dos seus “domínios” e “interesses”. Culturais, evidentemente.

domingo, 15 de abril de 2012

Joias Silvestres

Hoje, ao dar a minha caminhada, pelos caminhos [Agora – vejam só a modernice – chamam-lhes “ruas”, “travessas” e até “avenidas”!...] cá do Mato, minha terra natal, passei junto de um campo que foi dos meus pais e agora é propriedade de uma minha irmã. «Campo das Cortinhas», chamamos-lhe.
Era para ele que, quando puto, menos me custava levar o gado a pastar. Guardá-lo era fácil. Além disso, ficava relativamente distante de casa. A vigilância paterna era menos atenta. A terra tinha, do lado sul, uma pedreira desativada e, do lado poente, face ao caminho fundo, uma fonte. Estão, hoje, todos (uma e outro e outra) irreconhecíveis. A pedreira foi entulhada e encontra-se coberta de infestantes mimosas. O caminho subiu de nível, a todos os níveis: foi alargado, alcatroado, passou estrada, é rua – «Rua do Barreiro». A placa lá está. Mas deveria chamar-se «das Cortinhas», se se conhecesse e respeitasse a toponímia antiga. A IMAG. 1 mostra, em parte, o descrito. A fonte [Ó rapazes!] dá dó: abandonada, é um charco, uma lástima [IMAG. 2]. Dantes, os consortes mantinham-na limpa, como o rego que nela nascia. A água era potável, correntia, límpida. Servia tanto para animais, como para usos domésticos e humanos. Quantas vezes dela bebi, com a concha das mãos! Era também, naturalmente (sobretudo), utilizada na rega dos campos vizinhos.


O Campo das Cortinhas era de pasto fraco (terra de sequeiro), mas as vacas e/ou as touras dele não fugiam facilmente. Os valados das terras vizinhas dos vizinhos, o muro alto do caminho fundo e a pedreira, por um lado, e a cancela, por outro, não lhes permitiam fugas. Mesmo comigo distraído, sozinho ou acompanhado, em brinquedos e brincadeiras. [Todas bem bonitas, de nenhum modo nunca feias, Sôrabade!] A sua guarda apenas se complicava quando lhes mordia a sede ou o cio, arrebitando-lhes o rabo. [«A toura and’ò boi!  – Avisava-se – É preciso levá-la ao Pilo.» O Pilo era o lavrador que tinha o “macho de cobrição”. O serviço era pago em dinheiro ou géneros agrícolas.] Quando uma delas se inquietava [Á, sua tola!...] atirava-se às parceiras, de tal modo, que, mal a gente se desprecatava, já ela lá ia a todas, correndo, berrando e saltando, desenfreada, levando as outras atrás ou à frente. [Umas doidinhas, coitadas!]
Pois quando não tinha parceiros para brincar, arranjava eu maneiras de ocupar aquele tempo de trabalho chato, monótono, cansativo. E como só trabalha quem não sabe fazer mais nada e as vacas, depois do Pilo, nas Cortinhas, não me davam trabalhinho nenhum, lá ia eu fazendo uns brinqueditos e praticando uns divertimentos, para, assim, sem trabalhos, acelerar os ponteiros do tempo.
Nas Cortinhas, vi a esmo semeados pela natureza, entre outras ervas, muitos malmequeres bravos, na sua cor viva de amarelo intenso. Foi então que, num rápido pensamento de e-terno retorno, recordei as joias silvestres que com eles fazia, no tempo de «guardador de vacas e de sonhos», como o Constantino do Redol.
Os malmequeres [Porque raio não se lhes chama bem-mequeres?...]  abundam, nesta época do ano. Nascem, crescem, florescem, multiplicam-se e topam-se por toda a parte, num sítio qualquer. Ao deus dará. Até onde menos se espera. Mas os seus espaços preferidos são os campos cultivados. Devido, certamente, aos fertilizantes, sobretudo orgânicos, apesar de agora já não haver gados para grandes estrumes. Campos há, todavia, que mais parecem enormes tapetes amarelos, tecidos a malmequeres [IMAG. 3].


Ora, vamos lá, agora, às ditas joias. [Com os assaltos que, ultimamente, têm acontecido a ourives e ourivesarias, estas não cairão, certamente, tão facilmente nas mãos dos larápios.]
Chega de tretas! Conta mas é como se manufaturam esses “tesouros”?
Pois cá vai. Primeiro, apanha-se um bom punhado de malmequeres, retirando-se as corolas dos pedúnculos. Escolhe-se um pé, para “fio”, onde se vão enfiando as “pérolas” [IMAG. 4]. Este deve ser, por isso, o mais direitinho possível e limpo de folhas, para que o enfiamento seja fácil e as corolas não sejam danificadas e/ou destruídas [IMAG. 5]. Quanto mais longo for, maior poderá ser a joia.


Como “fio”, além de outros caules ou hastes, serviam-me também pedúnculos da flor da “língua de ovelha” [IMAG. 6], erva tão brava como os malmequeres. Aliás, encontram-se muitas vezes juntas. Danadas daninhas, como todas. Em seguida, enfia-se a ponta do pedúnculo, por trás, no centro de cada corola, atravessando-lhe o gineceu [IMAG. 7]. Com jeito, len-ta-men-te, cui-da-do-sa-men-te... Porque estes malmequeres, apesar de silvestres, são muito frágeis e delicados. [Por essas e outras é que, um dia, um aprendiz de poeta escreveu: «em cada flor há sempre um gesto / de suicídio»[1].]


Enquanto pedúnculo houver para corolas enfiar, por um lado, e o tipo, medida e quantidade de joias a construir, por outro, é continuar. Com o pedúnculo quase preenchido, enfia-se, sempre com jeito e cuidado, a ponta restante do dito no gineceu (mais ou menos) da flor [IMAG. 8]. A joia ganha, desta forma, uma forma circular [IMAG. 9].

 
Por fim, aconchegam-se as flores e... Pronto: está pronta a joia. Consoante o tamanho do diâmetro, teremos um colar, uma coroa, uma pulseira ou outra peça que adorne e enriqueça (ainda mais) cada uma destas joias. Ou outras que o engenho e a arte do “joalheiro” for capaz de inventar e produzir.
Agora, é só colocar estas preciosidades [Tão delicadas e efémeras como as outras, pois tão naturalmente reais e realmente naturais, ou mais, que as demais.] ao pescoço, na cabeça, no pulso, ou em todas estas partes e outras, ao mesmo tempo [IMAGS. 10 a 12]. Ou então, oferecê-las, ternamente, à pessoa amada, mesmo sabendo-se que não é de contar com retorno equivalente.
 

[1] David Rodrigues, 1981: O Rito do Pão. Coimbra: Centelha, p. 15.

domingo, 18 de março de 2012

Um Tesouro Património da Humanidade

Há dias, recebi O Tesouro. É um livro. Uma história de ficção literária. Oferta da autora, Maria Clara Miguel, pseudónimo de Isaura Afonseca. Muito obrigado!



Conta-se aqui uma história de «caça ao tesouro». Três adolescentes (dois irmãos, Joana e Pedro - os mais crescidos e cordatos - e um primo, Afonso - o mais miúdo e traquina) acabarão por descobrir, no «velho casarão da família», numas férias de verão, valiosa e surpreendente riqueza. Para o conseguir, o «trio» teve de decifrar uma série de pistas e subtis indicações, deixadas pela bisavó Margarida, em vários locais.
Tudo começa com «uma folha de papel vegetal, dobrada em quatro», encontrada por Pedro, inesperadamente, n’A Ilha do Tesouro. Em «caligrafia gordinha e bem desenhada», Margarida, desafia o leitor a, depois de terminar a narrativa de Stevenson, «embarcar numa aventura» e «descobrir um tesouro estupendo e único». Terá apenas, para o efeito, de «usar bem […] a inteligência e acreditar».
Perante o manuscrito, Pedro reúne com a irmã e o primo. Analisam a mensagem e decidem avançar. Em conjunto, mas sem conhecimento dos adultos. Margarida, cujo «amor pelos livros» era de todos bem conhecido, localiza a «primeira pista»: «sétimo livro da primeira prateleira da minha estante.»
Mas, nos seus livros, ninguém pode mexer. Todos sabiam. Só com autorização de Amélia, a mais velha e respeitada criada do «solar». Margarida, «no leito da morte», confiara-lhe a custódia daquela estante, com o pedido de que nunca fosse alterada, em cada prateleira, a ordem dos volumes. Os livros podiam ser retirados e lidos. Mas, depois, tinham que regressar ao seu «local exato». Havia, assim, no escritório da Margarida, uma «estante proibida», onde ela deixara devidamente organizados os livros de que mais gostara. E o «trio» lá teve de ir pedir à Amélia o tal sétimo livro – As Aventuras de Tom Sawyer, de Mark Twain – a fim de procurar a pista e decifrá-la. E depois, outras e outras.
 Estas são as personagens protagonistas da narrativa. Incluindo Margarida, ainda que falecida há cerca de duas décadas. E a Amélia, ainda que quase analfabeta, mas com uns «lúcidos noventa e três anos». Eram ambas da mesma idade e tinham vivido, praticamente, sempre juntas. Amélia representa, por isso, não só a memória viva da «sua menina Margarida», mas também a discreta presença da sua forte personalidade.
Quem se entregar à leitura d’O Tesouro verificará, por outro lado, que não faltam referências explícitas a livros (incluindo algumas transcrições) e a termos da mesma «área lexical» (estante, escritório, biblioteca, dicionário, enciclopédia, pesquisas na internete (Google), leitor, leitura, literatura, interpretação…) Além das narrativas de Stevenson e Twain, encontram-se referências e/ou citações de obras de Eça, Camões e Torga, entre outros, mas também de As Mil e Uma Noites e da Bíblia. Ou seja, de «pequenos e grandes tesouros literários» que, selecionados como principais pistas e anotados de sinais pela bisavó, ajudaram os bisnetos a encontrar o valioso e gratificante tesouro. Tesouro que ela, há muito, havia preparado para quem, como ela, também gostasse muito de livros.
É sugestiva a ilustração da capa, de Aurélio Mesquita. Em primeiro plano, as crianças, surpreendidas e concentradas na consulta de um livro. Em fundo, como que diluído em marca de água, o rosto atento de Amélia (ou será Margarida?) velando o «trio» e como que guardando uma repleta estante de volumes.
O Tesouro é, evidentemente, uma narrativa infanto-juvenil. Os seus primeiros destinatários e prioritários leitores serão, por isso, crianças e jovens, com idades compreendidas, aproximadamente, entre os onze e os dezasseis anos. Do secundário, dir-se-á. Mas os adultos, sobretudo aqueles que não deixaram morrer a criança que foram, encontrarão, na leitura deste livro, também uma forma de (e)terno retorno àquela idade do sonho, imaginação e fantasia. De aventuras também, mas sem piratas e grandes perigos. Apenas com desafios intelectuais, morais e sociais.
 Uma permanente intencionalidade pedagógica configura, por isso, esta narrativa. Literária, em primeiro lugar, mas também linguística e gramatical, estética e ética, sem nunca esquecer o social e o afetivo. Não só a nível estritamente familiar, «porque os amigos são a família que nós escolhemos», dizia Margarida. Sem dogmatismos, mas com princípios. Sem tabus, mas com valores. Sem imposições. Com diálogos. Em liberdade, com responsabilidade e solidariedade.
O «estupendo e único» tesouro que os bisnetos de Margarida encontram, depois da decifração das pistas, não se cifra, por isso, tão só e apenas numa valiosa riqueza material. É também o que ele simbolicamente representa: todos os valores humanos e culturais antes referidos e que ao longo da narrativa foram evocados, avaliados, praticados e preservados. Daí que, no fim da história, a partilha do tesouro não fosse apenas entre os elementos do «trio», pois a bisavó exigia que parte da riqueza encontrada  coubesse também a um quarto elemento, aquele, precisamente, que possuía o valioso objeto artístico – caixinha de música - onde Margarida tinha engenhosamente escondido o tesouro.
Este Tesouro é, assim, em última análise, uma bela história de ficção, onde os valores que constituem e definem (deviam definir) o património (material e imaterial) da Humanidade estão presentes e atuantes. Se não como atores, como seus verdadeiros motores.
Se ainda estivesse no ativo, recomendaria, vivamente, aos meus alunos (futuros docentes) de todos os cursos e variantes, O Tesouro da Maria Clara Miguel/Isaura Afonseca. Porque nele também se ensina a ler uma obra literária. Interdisciplinarmente, como sempre deve ser.

Obrigado, Isaura, de novo.